A rebelião carcerária que 'apresentou' PCC ao país e deixou 16 mortos
A cantora Simony, que fez sucesso na infância cantando no conjunto Balão Mágico, visitava seu então namorado, o rapper Afro X, preso na Casa de Detenção de São Paulo, quando ela e outras milhares de pessoas no estado foram feitas reféns. Começava, na manhã daquele domingo, há 25 anos, uma megarrebelião que afetou 29 unidades prisionais, deixou 16 pessoas mortas — além de uma criança ferida na cabeça — e tornou o Primeiro Comando da Capital (PCC) conhecido em todo o país.
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Assim como cerca de 13 mil reféns no território paulista, a artista de então 24 anos ficou mais de 25 horas na mão de criminosos, que tomaram o controle dos presídios obedecendo a ordens de líderes do PCC como os bandidos Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e Idemir Carlos Ambrósio, o "Sombra", que já estavam presos à época. O comando para virar as cadeias foi enviado por mensagem de celular e se alastrou. Em pouco tempo, dezenas de unidades foram tomadas.
Dominados pelos criminosos no dia 18 de fevereiro de 2001, os presídios só foram recuperados pelo governo estadual no dia seguinte. Mas, então, o PCC havia deixado claro o alcance de seu poder.
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A facção já tinha domínio das cadeias de São Paulo, mas essa realidade ainda não havia sido exposta ao Brasil. Autoridades paulistas e federais ignoravam a existência do grupo. Isso começou a mudar no dia 13 de fevereiro de 2001, quando nove presos foram mortos no Carandiru por membros do PCC. Marcola e outros chefes do grupo eram os principais suspeitos e, por isso, foram transferidos para diferentes unidades prisionais. Essa remoção acabou sendo o estopim da insurreição.
Presos da Penitenciária do Estado dominados pela polícia após motim do PCC
José Luís da Conceição/Agência O GLOBO
Foi a maior rebelião carcerária da história do país, ocorrida em um domingo, dia de visita. Mais de mil crianças estavam no Carandiru quando a cadeia "virou". Uma menina de 9 anos e seu irmão, de 7 anos, estavam lá com a família levando um bolo de aniversário para o tio. Eles viram quando um detento foi esfaqueado e depois degolado. "O moço estava no chão e já tinha uma bola de sangue na camisa. Aí, deram dez facadas, eu contei. A gente se ajoelhou e rezou, mas não adiantou", descreveu ela.
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Os parentes dos presos da Casa de Detenção foram obrigados a passar a noite nas celas. Muitos nunca tinham ouvido falar no PCC. Quando a polícia entrou, eles temeram um massacre como o que aconteceu no Carandiru em 1992, quando 111 detentos foram mortos por agentes de segurança, após um motim. A menina Ingrid Gama, de então 4 anos, foi ferida por estilhaços de uma bomba de efeito moral lançada por policiais na Penitenciária do Estado e ficou internada em estado grave no hospital.
Um dos chefes do PCC, Sombra acabou morto meses depois da rebelião. Quando tomava sol no pátio da Casa de Custódia de Taubaté, ele foi atacado por outros presos, que o enforcaram com um cadarço de tênis, enquanto espancavam o criminoso, que teve o crânio esmagado. Já Marcola foi julgado e condenado pela série de motins. Preso desde 1999, com penas que somam mais de 300 anos de cadeia, ele atualmente está no Presídio Federal de Segurança Máxima de Brasília.
Detentos no pátio da Penitenciária do Estado após retomada da PM
José Luís da Conceição/Agência O GLOBO
Depois da rebelião de 2001, o PCC voltou a realizar ataques contra o Estado. Em 2002 e em 2003, a facção promoveu novos motins em presídios e também ataques com bomba contra bases da polícia e prédios de diferentes órgãos públicos. Mas a pior ofensiva ocorreria em maio de 2006. Naquele mês, o governo paulista decidiu transferir 765 detentos ligados ao PCC para a penitenciária de segurança máxima em Presidente Venceslau, no interior do estado. A reação do crime seria terrível.
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Em uma série de ataques, bandidos ligados ao PCC mataram 54 policiais, guardas civis e bombeiros, muitos durante suas folgas. Delegacias, postos de policiamento, ônibus e bancos foram atacados. Na segunda-feira seguinte, encolhida e com medo, a maior cidade do país fechou o comércio, cancelou as aulas e voltou mais cedo do trabalho pra casa. Em seguida, veio a retaliação da polícia, deixando um rastro de centenas de civis foram mortos até o dia 19 de maio daquele ano.
De acordo com um relatório publico em 2009 pelo Laboratório de Análise da Violência da UFRJ, essa matança foi resultado, em grande parte, da reação de policiais e grupos de extermínio contra pessoas que eles consideravam suspeitos de ligação com os ataques do PCC.
