A que nível chegamos no business para pets: time de provadores de rações e petiscos têm quatro patas e paladares exigentes

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Imagine dezenas de gatos cochilando ou perambulando por um espaço que se parece muito com uma creche para animais de estimação. Todos os dias, às 16h, é servido o jantar.

Os gatos entram em pequenos compartimentos, cada um com duas bandejas de ração seca colocadas sobre balanças. Os gatos escolhem qual alimento preferem, e as balanças medem quanto eles consomem.

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Nutricionistas de um centro da Royal Canin no sul da França observam atentamente: qual ração os animais preferem? Com que entusiasmo eles comem? Uma equipe utiliza esses dados para ajustar receitas e desenvolver novas fórmulas. Fabricantes de alimentos para animais, como a Royal Canin, pertencente ao conglomerado global de produtos de consumo Mars, estão investindo grandes quantias em pesquisas para entender o paladar de gatos e cães — e para atender às pessoas que consideram seus animais de estimação membros da família.

Mesmo com a guerra no Irã provocando inflação e o crescimento dos salários não acompanhando esse ritmo, o mercado de alimentos para animais de estimação continua crescendo. E, à medida que os animais adotados em massa durante a pandemia, em 2020, chegam à meia-idade, os fabricantes de alimentos para pets estão concentrando seus esforços em produtos destinados a ajudar nas articulações doloridas, fortalecer músculos cansados e proteger a função cognitiva.

— O envelhecimento é uma das maiores oportunidades — disse Cécile Coutens, presidente da Royal Canin. Cécile Coutens, presidente da Royal Canin, na sede da empresa em Aimargues, França.

Ela é a primeira mulher a liderar a companhia Mathias Depardon/The New York Times

A linha de alimentos para gatos idosos da empresa inclui uma mousse extramacia para gatos com 11 anos ou mais e uma ração seca fácil de mastigar para gatos a partir dos 15 anos. Muitas empresas vendem suplementos para gatos com demência e para ajudar a manter a saúde cerebral durante o envelhecimento.

Da mesa das pessoas ao pote dos pets: A virada da comida à base de insetos A inflação elevou os preços da ração convencional (chamada de “croquettes” em francês).

E, ainda assim, as opções nas prateleiras de alimentos para cães e gatos ficaram mais caras e especializadas, com marcas vendendo alimentos frescos de qualidade adequada para consumo humano. Estudos mostram que as pessoas reduzem seus próprios gastos antes de cortar despesas com seus animais de estimação.

No ano passado, a Purina lançou um prato de “pedaços macios em uma elegante geleia”, em formato de pirâmide, para incentivar os gatos a dar mordidas maiores. Gatos aguardam a hora de testar as rações no centro de pesquisas da Royal Canin em Aimargues, França

Mathias Depardon/The New York Times Mais de US$ 17 bilhões foram gastos com alimentos para gatos nos Estados Unidos no último ano, um aumento de 14% em relação ao mesmo período de dois anos atrás, segundo a NielsenIQ, empresa de pesquisa de mercado.

As vendas de alimentos para cães ficaram praticamente estáveis. Diferentemente das gerações anteriores, quando os pais acolhiam animais de estimação a pedido dos filhos, hoje as pessoas muitas vezes têm animais antes de ter filhos — se é que têm filhos —, disse Coutens.

Alimento para gatos aguarda teste de paladar no centro de pesquisas da fabricante Royal Canin em Aimargues, França. Nutricionistas do local observam quais grãos os gatos preferem e ajustam as receitas de acordo com essas preferências

Mathias Depardon/The New York Times As empresas estão investindo em linhas premium de alimentos para animais que atendem aos consumidores mais ricos, enquanto a economia em formato de K — expressão usada para descrever o aumento da distância entre ricos e pobres — persiste.

O luxo dos pets: Entenda como o mercado premium revela a nova relação entre tutores e animais Embora, em alguns aspectos, os gatos exijam menos cuidados do que os cães, eles costumam exigir uma dose maior de criatividade humana quando o assunto é alimentação.

“Nós gostamos muito dos gatos porque eles também são mais exigentes para comer, de certa forma. Portanto, é preciso mais ciência e tecnologia para conseguir atender a essas exigências com sucesso”, disse Philipp Navratil, CEO da Nestlé, em uma conferência em junho.

Nos últimos anos, os gatos passaram a ser adotados em taxas mais altas do que os cães, à medida que as pessoas passam mais tempo no escritório. Cães com um especialista em comportamento animal no centro de pesquisas da Royal Canin em Aimargues, França.

Nos últimos anos, gatos têm sido adotados em taxas mais altas do que cães, à medida que as pessoas passam mais tempo no escritório Mathias Depardon/The New York Times

Assim como a Nestlé, que possui dois centros onde pesquisadores estudam o comportamento de gatos e cães, a Royal Canin mantém um extenso programa de pesquisa dedicado a esses animais. No centro de pesquisa da Royal Canin em Aimargues, apenas os animais mais exigentes entre os 377 cães e gatos que vivem no local participam dos testes de palatabilidade.

Efeito da pandemia: Empresas abrem as portas para animais de estimação e criam até 'licença-PETernidade' O outro centro da empresa fica em Ohio.

Como parte do treinamento, os filhotes de gato recebem alimentos de diferentes texturas e sabores para desenvolver seus sentidos. Aos 7 meses, eles são ensinados a comer em comedouros específicos.

Cães que comem praticamente qualquer coisa, como os labradores, não são selecionados, disse Silvia Miret-Catalan, vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento da Royal Canin. Um funcionário com um Labrador Retriever no centro de pesquisa da Royal Canin em Aimargues, França.

Apenas os animais mais exigentes entre os 377 cães e gatos que vivem no complexo participam dos testes de paladar. Cães que comem quase qualquer coisa, como os Labradores, não são selecionados

Mathias Depardon/The New York Times No centro da Royal Canin, uma equipe monitora o comportamento dos animais depois do café da manhã e do jantar.

Os gatos e cães parecem mais apáticos do que o habitual? Estão brincalhões? Como está a qualidade das fezes, em uma escala de 1 a 10? — A pontuação mais baixa será dada à diarreia — disse Yannick Soulard, que trabalha na área de inovação.

Em seguida, as fezes são secas e analisadas para determinar como o alimento é digerido, explicou. Quando os cães e gatos completam 7 anos, os funcionários podem adotá-los.

Há uma longa lista de espera, e os funcionários que criaram um vínculo com determinados animais têm prioridade. O sabor é um dos principais focos.

Scott McGrane, especialista em felinos do Waltham Petcare Science Institute, da Mars, na Inglaterra, disse que sua equipe estava especialmente interessada em compreender os sentidos e os sabores percebidos pelos gatos, inclusive os mais velhos. Por que eles não demonstravam preferência por alimentos doces? Por que gostam tanto de atum?

Ele disse que os pesquisadores descobriram que os gatos possuem o receptor gustativo do umami, que lhes permite sentir e detectar compostos umami. O atum tem uma combinação única de compostos que, para os gatos, equivale a uma espécie de “superumami”, explicou.

Uma estátua do fundador da empresa, Jean Cathary, na sede global da Royal Canin em Aimargues, França. Cathary fundou a Royal Canin em 1968, após criar uma receita de ração para cães à base de cereais em sua garagem para tratar problemas de saúde dos animais

Mathias Depardon/The New York Times À medida que envelhecem, alguns dos receptores gustativos dos gatos desaparecem, mas eles mantêm a capacidade de perceber o sabor amargo, o que faz com que certos alimentos se tornem menos atraentes, disse Miret-Catalan.

Sua equipe desenvolve alimentos para gatos idosos que mascaram o amargor e intensificam aromas atraentes, para manter o interesse dos animais pela comida à medida que envelhecem, explicou. A Mars provavelmente é mais conhecida por fabricar Snickers, M&M’s e Skittles do que por seus produtos para animais de estimação.

Embora tenha adquirido a Royal Canin em 2002, a empresa entrou no mercado de alimentos para animais quase um século atrás. Naquela época, as pessoas alimentavam seus cães principalmente com restos de comida da mesa.

Nas últimas décadas, a Mars adquiriu milhares de hospitais e clínicas veterinárias. A empresa é proprietária de 6% de todos os estabelecimentos veterinários dos Estados Unidos, segundo a KPMG.

É a maior fornecedora de alimentos para animais de estimação nos Estados Unidos e no mundo. A fábrica na sede global da Royal Canin em Aimargues, França.

A fabricante de alimentos para animais de estimação, pertencente à Mars, está investindo pesado em pesquisas para entender o paladar de gatos e cães Mathias Depardon/The New York Times

Cathy Bedrick, sócia da KPMG que assessora clientes de private equity, disse que as empresas que possuem clínicas veterinárias esperam ter mais negócios nos próximos anos, à medida que a população mundial de animais de estimação envelhece rapidamente. O cachorro de Bedrick faz sessões semanais de acupuntura para tratar a rigidez na coluna.

Dentro da fábrica da Royal Canin, depois de uma parede repleta de fotos emolduradas de enormes pedaços de ração, há gigantescos tambores de aço onde milho, frango, trigo e outros ingredientes são misturados. A fábrica produz 146 tipos de ração seca entre os quais os donos de animais podem escolher.

Em uma tarde recente, a Royal Canin reproduziu um teste para mim e para meu colega fotógrafo, em um local ensolarado sob uma árvore. Observei Willow, uma gata Ragdoll de 2 anos, comer da Bandeja A, depois da Bandeja B e, em seguida, novamente da Bandeja A.

O que significava sua indecisão? Um representante da Royal Canin admitiu que não se tratava de um verdadeiro teste A/B: as bandejas continham a mesma comida, uma diferença em relação ao procedimento habitual. Willow não se incomodou.

Terminou as duas porções e foi embora.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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