A playlist sincera e o refúgio dos avergonhados
O jornal inglês The Guardian tem uma sessão que eu amo, mas que, parece, seria impossível de ser reproduzida no Brasil. Eu já tentei. Ela se chama “a playlist sincera de...”. Uma vez por semana uma figura pública comenta as canções que fazem parte de sua vida sob óticas que vão desde “a primeira música pela qual me apaixonei” até “a música que, inexplicavelmente, eu sei de cor”, passando por “a música que eu gostaria que tocasse em meu funeral” e “a música que eu secretamente adoro, mas digo a todos que odeio”. O segredo está na expressão “playlist sincera”. Por alguma estranha estratégia da porção dominante da espécie humana, poucos lidam bem com a verdade quando o assunto é gosto musical.
Isso ganhou força a partir da bossa nova, quando surgiu em larga escala a balela da “música boa” (aquela que tem muitos acordes) versus a “música ruim” (aquela que se toca com dois ou três acordes), uma ideia estendida pela geração seguinte, com Elis esbravejando contra “os alienados” da Jovem Guarda. O fato é que ninguém jamais definiu tecnicamente o que seria uma música boa e uma música ruim. Tudo é gosto adquirido e legitimado por afeto.
Com o tempo, a declaração dos gostos musicais se tornou um marcador de nível intelecto social. Uma resposta à pergunta aparentemente inofensiva “de que tipo de música você gosta?” passou a trazer tanto a aceitação grupal quanto o mais profundo desdém. Gostar de pagode é periférico, de reggae é canábico, de rock nacional é simplismo, de funk é criminoso e, de sertanejo, extremo direitismo. É como se tudo o que estivesse à margem da alta música (MPB clássica, bossa nova, jazz e música erudita) revelasse como são rasos os seus ouvintes.
A coisa entortou mais quando decidimos nos proteger contra tal “investigação de origem”. Criamos uma expressão vazia e acovardada, mas envernizada com uma mão de sofisticação: “Eu sou eclético.” Por definição, eclético, aquele que “ouve de tudo”, ninguém é. Se é, precisa saber o que tem acontecido no metal islandês, na carreira do trio romeno de dance pop Haven e no canto dos povos do Himalaia. Ecletismo se tornou o refúgio dos avergonhados.
Até uma emissora aqui de São Paulo, a Eldorado, lamentavelmente prestes a encerrar suas atividades, apostou na “musicocracia” social e cravou seu slogan: “A rádio dos melhores ouvintes.” Acho que eu era o único incomodado com isso. Pensava em meu pai. Nenhuma canção que ele amava (a sertaneja “Boate azul”, com os Amantes do Luar; o samba “Deixa eu te amar”, de Agepê; ou a romântica “Prece ao vento”, com Fernando Mendes) tocava na emissora. Qual repertório auditivo ele deveria ter para ser aceito no time dos melhores ouvintes?
Quando eu era editor de Cultura do paulistano Jornal da Tarde, nos anos 2000, testei alguns entrevistados do topo da sociedade (o jornal imaginou tê-los como leitores em potencial) e fiz uma busca (vã) por suas honestidades. Na sexta ou sétima abordagem, percebi que todos escolhiam a obra dos mesmos artistas quando falavam de suas canções favoritas.
Apareciam coisas belas de Tom Jobim, Duke Ellington, Chico Buarque, Johann Sebastian Bach e Ella Fitzgerald. Assim, a personalidade entrevistada reforçava sua imagem culta e fina, além de extremamente previsível. Duvido que ninguém ali tenha se casado ao som de Whitney Houston, contido lágrimas com Christopher Cross, dançado com Jackson do Pandeiro ou sentido a dor de uma perda com Cassiano. Apostaria até que, em suas vidas, cantaram muito mais Wando do que Frank Sinatra.
