A personalidade é influenciada pela genética? Novo estudo detecta mais de mil variantes em genes ligados à individualidade e identidade

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Você é naturalmente ansioso? Muito aventureiro? Mais argumentativo do que gostaria de admitir? Essas tendências são frequentemente medidas através do que os psicólogos chamam de dimensões da personalidade conhecidas como os “Cinco Grandes”: extroversão, amabilidade, conscienciosidade, neuroticismo e abertura à experiência. Cada traço existe em um espectro e tende a permanecer relativamente estável ao longo da vida adulta. 60+, 70+, 80+, 90+: como homens e mulheres mais velhos podem ganhar músculos em diferentes faixas etárias Rock in Rio: qual é o tempo máximo seguro de exposição a 100 decibéis (perto do palco) e dicas para proteger sua audição Mas o que determina a sua posição nesses espectros? Os cientistas sabem há muito tempo que a personalidade é influenciada por uma série de fatores — incluindo o DNA. O desafio tem sido decifrar os caminhos específicos pelos quais um código genético influencia o rumo da vida de uma pessoa. Para mapear essa arquitetura complexa, um grupo de especialistas formou um consórcio de pesquisa e analisou mais de 1 milhão de genomas, buscando variantes associadas à personalidade. Os pesquisadores também compararam os genes de milhares de irmãos e pares de pais e filhos para descartar outros fatores que poderiam estar em jogo. Com dados de 46 diferentes grupos de estudo, eles encontraram uma sinfonia de 1.260 marcadores genéticos ligados à personalidade, quase dois terços deles identificados pela primeira vez. As descobertas, publicadas na quarta-feira (2) na revista Nature, reafirmaram a compreensão dos cientistas de que o temperamento e a disposição são moldados não por alguns genes específicos, mas por milhares de pequenas variantes que podem se expressar em diferentes circunstâncias. A enorme escala do projeto também trouxe um novo poder estatístico para o estudo da genética da personalidade, fornecendo aos pesquisadores um conjunto de ferramentas para investigar os mecanismos biológicos por trás de como pensamos, sentimos e nos comportamos. — Considero as 1.260 variantes como uma espécie de prova de que agora temos o poder de responder a todas essas outras perguntas que não conseguíamos responder antes — diz Elliot Tucker-Drob, professor de psicologia da Universidade do Texas em Austin e um dos líderes do estudo. As diferenças genéticas comuns identificadas neste estudo ainda representam apenas cerca de 5% a 10% da variação de personalidade entre as pessoas. Mas os especialistas alertam para o perigo de se pensar nos fatores determinantes da personalidade como um gráfico de pizza, dividido em porcentagens exatas de genes versus ambiente. Na realidade, o DNA e o contexto de uma pessoa interagem constantemente; as experiências são a própria ferramenta que as predisposições genéticas usam para moldar quem a pessoa se torna. Em estudos sobre a influência genética no desempenho acadêmico, muito do que parece ser determinado pelo DNA muitas vezes acaba sendo privilégio parental ou ambiente familiar disfarçados. No entanto, em relação à personalidade, estudos comparativos entre famílias que buscaram essas variáveis ​​de confusão revelaram que cerca de 96% da influência genética provém, de fato, diretamente do próprio DNA. Isso faz sentido intuitivamente: crescer na mesma casa pode proporcionar aos irmãos oportunidades semelhantes, mas quase nunca lhes confere temperamentos semelhantes. A publicação de quarta-feira é, de certa forma, uma revitalização. No final do século XX — a era dos estudos clássicos com gêmeos — a personalidade era um foco central da genética comportamental. Mas, na última década, a genética da personalidade não foi estudada com a mesma intensidade que outras características, como o risco de desenvolver esquizofrenia, em parte porque a maioria dos traços de personalidade não era considerada clinicamente relevante. — Era uma ausência bastante notável — aponta Tucker-Drob, cujo trabalho acadêmico se concentra em “diferenças individuais”, um ramo da psicologia que examina as maneiras pelas quais as pessoas divergem em seus pensamentos, sentimentos e comportamentos.

Para ele, a personalidade não é apenas um conceito abstrato: a maneira como as pessoas interagem consigo mesmas e com o mundo pode ajudar a determinar quanto dinheiro ganham, os tipos de atendimento médico que procuram e a força de suas amizades. A personalidade está "significativamente relacionada a todos os tipos de resultados que acredito que todos na sociedade valorizam", segundo ele. A equipe de pesquisa analisou aproximadamente 10 milhões de variantes genéticas em todo o genoma para mapear os "Cinco Grandes". Ao agregar estudos distintos sobre várias características, os pesquisadores conseguiram descobrir como as predisposições de personalidade se refletem na saúde, nos hábitos e nas escolhas de estilo de vida. Os pesquisadores descobriram 258 variantes genéticas diferentes ligadas à extroversão, por exemplo, um aumento de 15 vezes no número de variantes conhecidas anteriormente. Um perfil genético com alta extroversão parece reduzir o risco de ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático, todos envolvendo sofrimento internalizante. Mas essa característica também foi associada a condições de neurodesenvolvimento, como o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH). Pessoas com predisposição à conscienciosidade — ou seja, capacidade de produtividade e organização — demonstraram maior propensão a praticar exercícios físicos, escolher alimentos com baixo teor calórico e dormir bem. A pontuação genética para conscienciosidade ajudou a prever quem se mudaria dos centros urbanos para bairros nobres aos 50 anos de idade. O neuroticismo, definido como uma tendência à instabilidade emocional, apresentou correlação previsível com 10 transtornos psiquiátricos diferentes, além de um índice de massa corporal mais elevado e maiores taxas de tabagismo. Os participantes do estudo com perfis genéticos que indicavam alto nível de neuroticismo pareciam duvidar de si mesmos em tempo real, frequentemente selecionando opções como "Não sei" em questionários da pesquisa. Como o neuroticismo pode ser um forte indicador de doenças mentais, alguns pesquisadores estão particularmente interessados ​​em como as novas descobertas esclarecem possíveis gatilhos e caminhos para o desenvolvimento da doença. Dalton Conley, sociólogo da Universidade de Princeton que não participou da pesquisa, ficou especialmente intrigado com a forma como os resultados do consórcio desafiaram uma teoria antiga entre os psicólogos, de que o neuroticismo é impulsionado principalmente por diferenças nos níveis de serotonina. A depressão e a ansiedade são frequentemente tratadas com sucesso com medicamentos que aumentam a produção desse neurotransmissor. A nova análise mostrou que as variantes do neuroticismo eram de fato especialmente ativas nas células cerebrais — mas não revelou nada de significativo sobre o sistema serotoninérgico em particular.

— Eu não diria que isso acaba com essa teoria para sempre, mas definitivamente está lançando dúvidas — analisa Conley. Outra descoberta inesperada surgiu no contexto dos relacionamentos. Geneticistas comportamentais sabem que as pessoas tendem a escolher parceiros de vida com perfis de DNA semelhantes em áreas como nível de escolaridade. Mas, no novo estudo, os traços de personalidade não apresentaram muito do chamado "acasalamento seletivo": na verdade, as variantes de personalidade entre os parceiros foram combinadas quase que aleatoriamente. Em contrapartida, as personalidades reais dos cônjuges, especificamente, sua abertura a novas experiências, às vezes apresentavam correlação, talvez porque compartilhar o cotidiano torne as pessoas mais semelhantes ao longo do tempo. Conley, que estuda a interação entre genes e ambiente, afirmou que esses fenômenos ocultos, dispersos pelo conjunto de dados, são úteis para pesquisadores como ele, interessados ​​em compreender a relação de causa e efeito. — O próximo estudo, com o dobro do tamanho da amostra, encontrará 3.000 variantes, sem surpresas. Mas o fato de agora podermos analisar a dinâmica entre personalidade e estabilidade conjugal, ou personalidade e mercado de trabalho, ou personalidade e sistema educacional, é isso que torna essa ferramenta realmente útil — afirma.

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