A oposição quer vencer as eleições?

 

Fonte:


“Professor, o que acontece com a oposição no Brasil?” Essa é a pergunta que mais recebo quando o assunto é eleição presidencial. No meu contexto pessoal, uma das tarefas mais frequentes de um acadêmico brasileiro no exterior é explicar o Brasil para os estrangeiros. Sou vinculado a um departamento universitário dedicado a ensinar e pesquisar temas relacionados a eleições e campanhas eleitorais. Como o exercício da Academia exige, tentamos nos ater a dados e análises empíricas para alimentar os debates. Porém, o pleito brasileiro de 2026 nos apresenta uma dissonância cognitiva entre o cenário empírico-eleitoral e a realidade política. No caso, a oposição dá sinais de desprezar uma janela de oportunidade. Isso não é comum.

Leia também: Dino cobra informações da Câmara sobre 'situação' e missão de Mário Frias no Bahrein

Benefícios aprovados: pacote de bondades de partidos teve articulação em grupo de WhatsaApp e contou com apoio dos presidentes do PT e do PL

A pergunta crítica que estará nas mentes dos eleitores em 2026 é se o presidente Lula merece ou não continuar. Essa pergunta é o melhor indicador de reeleição. Até o presente momento, em diversas pesquisas públicas, a maioria da população afirma que o presidente não merece continuar. O desafio da campanha de Lula será mostrar os motivos para mais quatro anos de governo. No limite, esse incumbente concorre contra ele mesmo. Ou contra a memória positiva de seus próprios governos do passado. Nada trivial.

E ele ainda sofre de um mal global. A maioria dos chefes de Estado e líderes de governo sofre com índices de popularidade negativos. Ou seja, há mais desaprovação do que aprovação dos governos pelo mundo. Esse teto baixo de popularidade dificulta as reeleições. Temos uma onda de oposição. Em 2026, até o húngaro Viktor Orban, depois de 16 anos no poder, foi derrotado. No Brasil, eleitores de Jair Bolsonaro do segundo turno de 2022 nunca aprovaram o atual governo e muito provavelmente devem novamente votar contra o PT. Um paredão de votos sem precedentes.

Nesse contexto, a oposição local deveria simplesmente reproduzir experiências internacionais exitosas. A equação vitoriosa é uma fórmula bem simples: a) união em torno de uma candidatura com rejeição mínima para ir além da polarização e conquistar os eleitores realmente decisivos. Os exemplos são inúmeros. Peter Magyar, líder oposicionista húngaro e, agora primeiro-ministro, é uma referência. Unificou os partidos contrários a Orban e avançou em todos os segmentos. b) apresentar uma agenda para atacar problemas concreto do cotidiano, com uma utopia mínima, para dar esperança de que uma mudança trará uma vida melhor. c) a mais óbvia: mostrar-se minimamente diferente de quem está no poder. Principalmente na percepção de corrupção. Os grupos de fora da polarização, críticos para a vitória, tendem a acreditar que “todos são corruptos”. Flertar com a moralidade costuma encantá-los.

Todavia, os oposicionistas nacionais apostam em uma arquitetura duvidosa. A começar pela desunião sem diferenciação. No momento, há opções de candidatos, mas com enormes dificuldades em se diferenciarem entre si. Há limitações até em apontar publicamente os passivos evidentes de seus adversários. Para completar, o candidato mais bem posicionado nas pesquisas (e mais rejeitado) se afunda em uma crise de confiança. Uma mistura de mentira escancarada, amadorismo da campanha na gestão de crise e potencial associação com o caso Master. O efeito final é incerto, mas certamente não alivia a rejeição. Pode, inclusive, acentuá-la. Maior rejeição não projeta sucesso.

Além disso, tem a indiferença geral (e irrestrita) em relação ao pleito do Executivo. Para os partidos, e seus líderes, a eleição que vale é a do Congresso Nacional. Eleger mais representantes significa mais poder e mais recursos. Nenhum áudio na disputa ao Planalto tira o sono das lideranças partidárias. Se não atrapalhar as chapas proporcionais, que siga a vida. Para finalizar, a oposição, até agora, não apresentou uma utopia de país que vá além de “tirar o PT”. Esse argumento, por si só, nunca venceu.

Portanto, desunidos na causa, atrapalhados pelos áudios, desconectados da disputa e sem uma mínima aspiração de país que possa mobilizar corações e mentes dos eleitores decisivos, só resta ampliar a pergunta dos meus alunos para: oposição, vocês querem mesmo vencer?