Cinco países têm veto, sete candidatos viraram seis e a ONU ainda não achou seu próximo chefe. O Dia da ONU chega com a eleição do secretário-geral travada no Conselho de Segurança.
Em 24 de outubro de 1945, a Carta das Nações Unidas entrou em vigor, depois de ratificada pela maioria dos países signatários, inclusive os cinco que ganhariam assento permanente no Conselho de Segurança. Neste sábado, a organização completa 81 anos.
O aniversário chega com uma ironia. O mandato de António Guterres termina em 31 de dezembro, e o clube que escolhe seu sucessor ainda não conseguiu se entender.
Pela Carta, o secretário-geral é nomeado pela Assembleia Geral, mas por recomendação do Conselho de Segurança. Na prática, o que decide é uma sequência de votações informais, as straw polls, em que cada um dos 15 membros do Conselho marca “encorajar”, “desencorajar” ou “sem opinião” para cada candidato.
O resultado é secreto. A Grécia, presidente do Conselho em outubro, anuncia à imprensa apenas que a votação aconteceu.
Os números vazam em minutos. Para ser recomendado, o candidato precisa de pelo menos nove votos “encorajar” e de nenhum veto dos cinco permanentes (EUA, China, Rússia, Reino Unido e França).
A certa altura, o Conselho passa a usar cédulas coloridas, com uma cor para os cinco com veto, para que todos vejam se existe objeção. Em 2016, Guterres foi escolhido depois de seis votações.
A sexta votação informal, em 16 de outubro, foi a primeira com cédulas coloridas nesta eleição. Segundo os vazamentos, Rebeca Grynspan, da Costa Rica, chefe da agência de comércio e desenvolvimento da ONU (UNCTAD), teve nove votos “encorajar” (três deles dos permanentes), cinco “desencorajar” (dois dos permanentes) e uma abstenção.
O argentino Rafael Grossi, que dirige a agência atômica internacional (AIEA), e a guianense Carolyn Rodrigues Birkett, embaixadora de seu país na ONU, tiveram oito “encorajar” cada e seis “desencorajar” cada. Os três favoritos receberam dois votos negativos dos cinco com veto, segundo duas fontes diplomáticas ouvidas pela Associated Press.
Isso significa que nenhum candidato tem o apoio de todos os permanentes. A equatoriana Ivonne A-Baki teve 14 votos negativos, inclusive os dos cinco com veto.
Segundo o Security Council Report, quem contou os votos foram EUA e China. No dia seguinte, o ex-presidente do Senegal, Macky Sall, retirou a candidatura.
Ele disse que os resultados “indicam uma escolha favorecendo um candidato, talvez mulher, da região da América Latina e Caribe”. A disputa tem agora seis candidatos: Grynspan, Rodrigues Birkett, Grossi, as equatorianas María Fernanda Espinosa e Ivonne A-Baki, indicadas por Antígua e Barbuda e por Tonga, e o ugandense Olara Otunnu.
Com todos vetados por ao menos dois dos cinco, a imprensa especializada já fala em um “candidato coringa”. Entre os nomes que circulam estão o búlgaro Nickolay Mladenov, hoje alto representante para Gaza no chamado Conselho da Paz, a vice-secretária-geral Amina Mohammed, a mexicana Alicia Bárcena, a emiratense Lana Nusseibeh, a holandesa Sigrid Kaag e o turco Feridun Sinirlioglu, que dirige a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa.
Segundo o instituto AEI, há uma “falta geral de entusiasmo” com os candidatos atuais. Até a Polymarket abriu mercado: em 17 de outubro, dava 49% a Grynspan, 19% a Grossi e 13% a Rodrigues Birkett.
São apostas, não pesquisas. Em 80 anos de ONU, nove homens ocuparam o cargo e nenhuma mulher.
O único latino-americano foi o peruano Javier Pérez de Cuéllar, de 1982 a 1991, há 35 anos. Não existe regra de rodízio regional, mas há uma convenção informal, e a América Latina é considerada a próxima da fila.
É por isso que seis dos oito candidatos iniciais eram da região, e por isso que Sall se despediu apontando uma preferência do Conselho por uma mulher latino-americana. Entre os candidatos que caíram estava Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e ex-alta comissária da ONU para os direitos humanos.
Ela foi indicada em fevereiro por Chile, Brasil e México. Em março, o governo do novo presidente chileno, José Antonio Kast, retirou o apoio, por considerar a chance de sucesso inviável.
O Brasil e o México mantiveram o respaldo, e o presidente Lula a recebeu em Brasília. Bachelet saiu da disputa em 19 de setembro, depois de receber apenas um voto “encorajar”, onze “desencorajar” e três abstenções na terceira votação.
O AEI registra que os EUA indicaram oposição à sua candidatura. Diplomacia também se mede pela capacidade de reconhecer a hora de recuar.
O Brasil investiu capital político numa candidatura que o próprio país de origem da candidata já havia abandonado. Quem vencer herda uma ONU em aperto financeiro.
Segundo a Human Rights Watch, os EUA pagaram só cerca de US$ 160 milhões do orçamento regular até fevereiro, contra uma dívida total próxima de US$ 4 bilhões entre orçamento, operações de paz e tribunais. A organização chegou a alertar para o risco de falência.
O plano de reforma UN80 já cortou 15% do orçamento de 2026 e eliminou milhares de vagas. Washington é o maior devedor, mas, segundo a mesma fonte, cerca de 82 dos 193 países não tinham pago a conta inteira até maio.
Na terça-feira, em Doha, um enviado de Trump, Tom Barrack, disse que a América, como fiador do mundo nos últimos 80 anos, “não está mais lá”. Ele chamou isso de “realinhamento”, não de abandono.
É o pano de fundo da escolha: um mundo em que a principal potência quer dar menos, e o chefe da ONU precisa fazer mais com menos.
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