A ‘olimpíada dos esteróides’ flopou? Em edição de estreia, Enhanced Games tem apenas um recorde quebrado

A ‘olimpíada dos esteróides’ flopou? Em edição de estreia, Enhanced Games tem apenas um recorde quebrado

 

Fonte: Bandeira



Os Enhanced Games, competição esportiva que permite o uso de doping e substâncias proibidas, estrearam neste domingo, em Las Vegas, nos Estados Unidos, cercados por promessas grandiosas: recordes mundiais, uma reinvenção do esporte e um novo capítulo da performance humana. No fim, o saldo foi bem menos histórico do que os organizadores previam: apenas uma marca foi quebrada.

O prêmio de US$ 1 milhão — cerca de R$ 5 milhões — prometido aos atletas que superassem recordes mundiais teve apenas um vencedor: o nadador grego Kristian Gkolomeev. Nos 50m livre, ele completou a prova em 20s81 e superou por sete centésimos a marca registrada pelo australiano Cameron McEvoy no início deste ano, tempo alcançado sem o uso de substâncias proibidas.

O feito, no entanto, não será reconhecido oficialmente. Gkolomeev nadou sob efeito de substâncias vetadas em competições tradicionais e utilizou um traje tecnológico banido nas principais competições internacionais.

Nem o doping garantiu vitória

Antes da estreia dos Enhanced Games, 37 dos 50 atletas participantes passaram três meses concentrados em um resort em Abu Dhabi, sob acompanhamento de médicos e especialistas. Nesse período, seguiram protocolos personalizados que combinavam treinamento físico, monitoramento clínico e uso programado de substâncias voltadas ao ganho de performance, como testosterona, esteroides anabolizantes, hormônio do crescimento humano, moduladores metabólicos, eritropoietina e estimulantes como Adderall.

Se a expectativa era provar que atletas “aprimorados” competiriam acima de qualquer referência conhecida, o resultado trouxe um roteiro menos conveniente para os organizadores. Alguns atletas que optaram por competir limpos tiveram desempenho superior ao de adversários que usaram substâncias. O americano Fred Kerley venceu os 100 metros rasos, Tristan Evelyn levou o ouro nos 100 metros femininos, e Hunter Armstrong ganhou os 50m costas.

A fala de Evelyn após a vitória resumiu o desconforto do momento: “Isso prova que vencer exige mais do que química”. A declaração contrariou, ainda que indiretamente, a principal narrativa do evento: a de que substâncias poderiam ampliar a capacidade humana de forma decisiva.

Brasileiro saiu da aposentadoria para competir

O Brasil também marcou presença em Las Vegas com o nadador Felipe Lima. Aos 41 anos, o ex-atleta olímpico saiu da aposentadoria para disputar os Enhanced Games. Medalhista de prata nos 50m peito no Mundial de Gwangju, em 2019, e bronze nos 100m peito no Mundial de Barcelona, em 2013, Felipe construiu uma carreira consolidada na natação brasileira e internacional antes de aderir ao evento.

“Eu senti que meu sono melhorou e sinto mais energia”, comentou o atleta sobre o uso das substâncias, em vídeo publicado às vésperas da competição. Ao Fantástico, ele afirmou que os Enhanced Games poderiam “mudar a história da performance humana”.

Na piscina, Felipe disputou os 100m peito contra outros três atletas e terminou na terceira colocação. A vitória ficou com o americano Cody Miller. Nenhum dos competidores, porém, conseguiu quebrar recorde na prova.

Espetáculo transformou doping em vitrine

Durante o evento, telões espalhados pela arena exibiam ao público os protocolos adotados pelos atletas. Entre uma prova e outra, apareciam níveis de testosterona, hormônio do crescimento, eritropoietina e estimulantes, transformando o uso de substâncias, normalmente tratado como infração esportiva, em parte central do espetáculo.

O Comitê Olímpico Internacional condenou a iniciativa como uma forma de “destruir qualquer conceito de fair play” e classificou o evento como “idiota”. Ainda assim, os Enhanced Games atraíram atletas, investidores, criadores de conteúdo fitness e nomes ligados ao universo do biohacking e da chamada otimização humana.

Entre os patrocinadores estão a 1789 Capital, fundo de Donald Trump Jr., e o bilionário Peter Thiel, cofundador da Palantir Technologies e ativista político conservador. O evento também se conecta a um mercado em expansão que envolve longevidade, reposição hormonal, recuperação muscular, peptídeos, performance máxima e produtos de saúde voltados ao consumidor.

Estudo aponta riscos e conflito de interesses

Em artigo aceito para publicação no Journal of Drug Issues, pesquisadores analisaram entrevistas do fundador dos Enhanced Games, o empresário australiano Aron D’Souza, e identificaram argumentos recorrentes usados para desestabilizar políticas antidoping, justificar o uso de substâncias para melhorar desempenho e legitimar a competição.

Entre as alegações analisadas estão a ideia de que o doping seria uma evolução inevitável do esporte, que atletas deveriam ter liberdade para decidir o que fazer com seus corpos, que muitos competidores já usam substâncias proibidas e que o envelhecimento seria uma “doença” a ser superada com medicamentos.

Os autores, porém, questionam essa retórica. Segundo eles, a noção de autonomia corporal perde força diante de protocolos de drogas definidos pela organização, coleta obrigatória de sangue e salários de seis dígitos pagos a atletas simplesmente pela participação. “Isso não é escolha, é uma forma de controle”, afirma o texto.

O estudo também alerta para riscos à saúde pública. Embora os atletas dos Enhanced Games contem com acesso permanente a profissionais de saúde, o público em geral pode estar exposto a danos maiores caso a normalização de substâncias de performance se espalhe sem supervisão adequada. A prescrição excessiva de testosterona, especialmente entre homens jovens influenciados pelo fenômeno do “T Maxxing”, é apontada como uma das preocupações.

Mais marketing do que revolução esportiva

Nas provas, o resultado ficou aquém do discurso. Sem a sequência de recordes prometida e com performances mais discretas do que o esperado, os Enhanced Games terminaram mais como um experimento de mídia, marketing e biohacking do que como uma ruptura concreta no esporte de alto rendimento.

Isso não significa que o evento tenha passado despercebido. Pelo contrário: a competição mobilizou críticas, dividiu atletas, provocou debates sobre ética esportiva e dominou parte das conversas online nos últimos dias. Mas, ao menos na estreia, a chamada “olimpíada do doping” entregou menos revolução do que prometia — e expôs mais dúvidas do que certezas sobre o futuro da performance humana.