‘A nova vacina é muito promissora, e a dengue passará por uma mudança de paradigma’, diz novo diretor de programa especial da OMS

 

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O infectologista Marcus Lacerda, figura importante em pesquisas para controle de doenças como malária e HIV, há poucas semanas deixou seu posto no Brasil. O especialista, até então parte do quadro da Fundação Oswaldo Cruz e da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, assumirá o cargo de diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR), ligado à Organização Mundial da Saúde (OMS). Lacerda foi nomeado pelo diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus.

A bordo da organização, o especialista mirará na implementação de testes, drogas e vacinas em populações vulneráveis de todo o planeta para doenças como dengue, a própria malária, Chagas e até mesmo a doença do sono, bastante prevalente na África, mas que não tem ocorrência no Brasil. Antes de embarcar para Genebra, onde trabalhará a partir de março, o especialista falou com exclusividade ao GLOBO sobre os desafios do novo cargo, o papel de protagonista que o Brasil tem ocupado e faz um balanço dos 25 anos de seu trabalho em medicina na Amazônia: "avançamos em muita coisa".

O Brasil acaba de receber o registro da primeira vacina de dose única contra a dengue no mundo. Isso ajuda o país a ficar em um papel de destaque?

A campanha que foi feita para mim, junto à OMS, para o TDR, não é individual. Não sou eu. O Brasil se colocou à disposição do TDR. O Brasil é um protagonista global na luta contra as doenças tropicais. Eu sou especialista em saúde pública da Fiocruz, além de estar na Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado. O que a Fiocruz faz é uma coisa única. Pois além da pesquisa básica, translada essa informação para a produção. A Fiocruz produz vacinas e medicamentos que vão para o SUS. O Instituto Butantan também cresceu muito e está em pé de igualdade em termos de produção e distribuição de insumos para o país. Isso torna o Brasil muito competitivo e essa é uma experiência que quero levar ao TDR. Países de baixa e média renda precisam começar a ser autossuficientes na produção de seus insumos. Essa é uma produção estratégica que o Brasil tem discutido. Fortalece a saúde e fortalece a economia.

Qual será a prioridade número um do seu trabalho?

O TDR tem 51 anos, portanto, é uma instituição muito consolidada. Não é exatamente a OMS, ele é um programa especial vinculado à organização, então tem uma certa independência, inclusive financeira. O foco do programa agora é financiar e estimular a pesquisa de implementação, para que os medicamentos e as vacinas cheguem às pessoas.O TDR quer acompanhar a implementação, porque a partir desse processo você amplia o acesso (às novas drogas, imunizantes, tratamentos) em escala. Nós fizemos (esse trabalho) em Manaus, tenho experiência com isso. Participamos da implementação de uma droga nova para a malária que é uma medicação em dose única.

A tafenoquina…

Sim, participamos das fases 2 e 3, que são parte do desenvolvimento clínico. Porém, quando ela foi aprovada pela Anvisa, fizemos o primeiro estudo em Manaus e em Porto Velho, mostrando que era factível colocar essa medicação em campo e que as pessoas aceitavam bem. Hoje ela está em uso em quase toda a Amazônia. A implementação está muito avançada, são quase 50 municípios usando o medicamento. Existe essa ruptura entre o que é desenvolvido e o que é implementado. A experiência que adquiri no Brasil é absolutamente fundamental. Não é uma coisa só de teoria, eu vivenciei essa implementação.

Os últimos 25 anos marcam uma evolução no cuidado com a malária. Os casos reduziram de maneira drástica e há um bom medicamento em uso. O que falta para sonharmos com a eliminação dessa doença?

Todas essas doenças tropicais estão relacionadas com populações vulneráveis. Então, às vezes o que falta não é a ferramenta. Na malária, por exemplo, eu tenho tratamento. Não tenho uma vacina para esse tipo de malária que temos no Brasil, mas tenho diagnóstico e tratamento que funcionam muito bem. Então por que eu não consigo eliminar? Porque não posso fazer com que o diagnóstico e o tratamento cheguem igualmente a todas as populações. No Brasil, o aumento da malária ocorre em áreas indígenas e de garimpo. Nesses locais estão populações extremamente vulneráveis. Essas ferramentas, apesar de existirem, não chegam. Doença tropical é um nome que está caindo em desuso, porque tem muito a ver com a colonização britânica. Passamos a chamar de doenças de populações negligenciadas ou vulneráveis. Isso coloca em contexto quem está ficando doente.

Qual dessas doenças não seria um problema tão sério se ocorresse em países desenvolvidos?

A vacina da dengue vai mudar um pouco o jogo. Não devemos esquecer, porém, que para uma pessoa que tem dengue grave e vai à UTI não há um medicamento para usar. Será que não vale a pena investir em drogas para dengue também? É preciso investir na prevenção e no tratamento, pois a doença continua existindo. Há essa dicotomia na saúde hoje. A Covid mostrou isso para nós. Existia gente que queria tratar e havia gente que queria a vacina. Na verdade, as duas coisas vão em paralelo. Eu não posso separar uma coisa da outra. A dengue passará por uma mudança de paradigma. A nova vacina é muito promissora. A vacina que já existe (da farmacêutica Takeda) não teve esse impacto todo porque precisa de duas doses. A do Butantan, por sua vez, é usada em dose única. No caso da malária, temos ferramentas, mas há problemas de acesso de populações vulneráveis. Na África há ainda a resistência às medicações, o que é um desafio à parte. A vacina de chikungunya, por sua vez, poderá eliminar a doença, definitivamente, quando for introduzida. Porque essa doença tem um padrão, acontece em focos. E a vacina poderia justamente interrompê-los.

O senhor já viu essa resistência a medicamentos, vacinas ou a buscar o serviço de saúde no Brasil? O movimento antivacina fez algum barulho na pandemia...

O SUS é relativamente forte. A população conseguiu superar, digamos assim, a Covid-19. Acho que temos um cenário muito diferente. Não porque o governo mudou a orientação política dele, mas é porque eu acho que a pandemia trouxe um debate que foi completamente desvirtuado (naquele tempo). Se usou a saúde como forma de manipulação de massas, mas eu acho que hoje a gente começou a ter uma reorganização desse sistema. O que eu percebo é que o SUS continua crescendo. A questão das vacinas é que à medida que as doses estão disponíveis para a população, as pessoas vão recebê-las. Não vejo nenhuma resistência a tratamentos. O que eu vejo é uma grande desigualdade social que segue existindo.

Quais são os desafios, então, de se trabalhar com doenças tropicais?

Essas doenças não representam mais o que representavam na década de 1960. Malária não é o que mata mais, são 50 mortes em um ano inteiro. Agora, ao pegar doenças relacionadas à obesidade, doenças cardiovasculares e violência, os números são muito maiores. É preciso, então, abandoná-las? Não, porque essas doenças voltam. É preciso lembrar que o vírus da zika foi descoberto há mais de 50 anos na África. Ele, contudo, volta anos depois no Brasil causando essa tragédia que são as crianças com deformidades. Essas doenças, se não forem eliminadas, virão a ser uma grande praga que não deixarão a gente avançar em outras áreas.

Como as mudanças climáticas complicam esse jogo?

A primeira coisa é que há doenças que estão indo para áreas onde não existiam antes, especialmente aquelas que dependem de vetores. Com o aumento da temperatura os mosquitos se adaptam melhor, então é fato que eu tenho locais que não tinham aquele vetor e passam a ter. E o sistema de saúde não está preparado para aquela doença. Quem morre de malária no Brasil? Pessoas em estados que não costumam ter casos. Em locais assim, a pessoa tem febre, busca o serviço, mas o médico que cuida não ouviu falar de malária. Essa é a pessoa que vai morrer de malária. Então é preciso lembrar que cada vez que acontece uma doença em um local em que ela nunca existiu, não dá para treinar tão rapidamente as pessoas para diagnóstico e tratamento. Outra questão é relacionada à condição do indivíduo. Por conta das mudanças climáticas, algumas pessoas podem ter menos acesso à alimentação e começam a ficar desnutridas. Especialmente as crianças podem ter doenças mais ou menos graves dependendo do estado de nutrição. Então, existe uma cadeia de impactos que nem sempre são observados, mas que são fundamentais. A grande questão da mudança climática é que os hospitais vão começar a atender um número de pessoas muito maior do que o que estão preparados para receber.

Olhando para seus 25 anos de trabalho na Amazônia, qual balanço faz do avanço do Brasil nesse tempo?

Avançamos em muita coisa. Acho, porém, que a política tem impactado muito as decisões técnicas. A minha avaliação é que o Brasil transformou a política em seu principal foco. Nesses 25 anos eu acho que a política tomou mais conta das áreas técnicas. Ficou claro na Covid-19 que a política dominou a área técnica. Mas esse embate entre o político e o técnico não tem que existir. Quando eu tenho um problema técnico, é o técnico que tem que resolver sempre. Não há um país onde um político tome decisões que competem aos técnicos. Da mesma forma, um técnico muitas vezes não está preparado para assumir um cargo político.