A noite que não existe mais: boates viraram estacionamentos, templos da fé ou clubes

 

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Nunca fui muito de boate, ao contrário do que muitos imaginam. Ia uma ou, no máximo, duas vezes e já queria conhecer outra. Não tinha aquela de bater cartão na mesma toda semana, reconhecer as pessoas e coisas do tipo. Por causa dessa infidelidade noturna, rodei os quatro cantos da cidade. Fui do Centro ao Recreio, passando por Gávea e Vila da Penha. Boates com propostas e experiências muito distintas, mas todas, sem exceção, efervescentes. Filas e filas na porta – furar aquela imensidão de gente era para poucos. Nos anos 90 e 00, a noite carioca se dividia principalmente entre barzinhos e o que antes se chamava de discoteca.

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Há alguns meses, voltei a campo para pesquisar a noite do Rio. Resultado: as principais boates ou fecharam ou mudaram de lugar. Alguns desses espaços se tornaram estacionamentos, templos da fé ou até mesmo clubes para finalidades amorosas. Entre tantos motivos para essa hecatombe, encontrei o medo da violência, a mudança de comportamento dos jovens e a tendência mundial de migração para festivais e shows. Evidente que existem muitos outros porquês. Dias atrás, caminhando pelo Centro, peguei-me apontando mentalmente para os lugares e lembrando: “ali era a Mariuzinn”, “ali era o Passeio Público”, “ali era a Six”, “o Dito & Feito não era fácil”.

A mãe está na porta

Sucesso absoluto na Zona Norte, a boate Raio de Sol apareceu ao mundo em 1999. Não demorou para se tornar queridinha. Ia gente do Rio inteiro curtir, entre tantos, Dennis DJ e até as aulas de lambaeróbica do professor Júnior. As matinês eram lotadas: até 700 jovens se espremiam para curtir a tarde dos sonhos. Não tinha celular. Não tinha zap. Mas tinha mãe na porta esperando. Não era raro o DJ, entre uma música e outra, anunciar quem estava do lado de fora aguardando ansiosamente a herdeira ou o pimpolhinho. Era uma vergonha enorme, mas a vida seguia. O espaço fechou em meados dos anos 2000.

Sem mesas e cadeiras

A região que hoje abriga um parque na Lagoa já foi, durante décadas, um dos principais polos da vida noturna carioca. Desde os anos 1970, concentrou boates que marcaram gerações.

Tudo começou com a inauguração da Papagaio Disco Club. A casa introduziu conceitos inovadores para a época, como a cobrança de ingresso para acesso à pista e a ausência de mesas e cadeiras. Era para dançar. Também foi pioneira ao valorizar os DJs, então chamados de “discotecários”, que se tornaram protagonistas.

A programação da Papagaio incluía não apenas festas e matinês, mas também desfiles, lançamentos de discos e apresentações musicais. Em 1982, por exemplo, a casa recebeu nomes como Lulu Santos, Rita Lee e Robertinho de Recife em uma mesma noite.

Com o passar dos anos, o endereço abrigou outras casas noturnas de destaque, como a Resumo da Ópera, a Trash e a Meli Melo. Toda a área foi demolida em 2015.

Casa do Mago

Antes de se tornar um dos endereços espirituais mais conhecidos do Rio de Janeiro, o casarão onde hoje está a Casa do Mago, no Humaitá, teve outra função: foi sede do Western Club, casa noturna com música ao vivo e programação regular, frequentada por diferentes públicos na cena carioca. Por ali passaram diversas bandas que marcaram o rock dos anos 80. Paralamas do Sucesso e Hojerizah são duas das que se apresentaram.

A mudança de perfil ocorreu em 1995, quando o imóvel passou a abrigar a chamada Casa do Mago. O espaço é conduzido por Ubirajara Pinheiro, maranhense que ganhou notoriedade por atendimentos espirituais e rituais que atraem visitantes de diversas partes da cidade. É, mas aí é outra história.

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