A multidão e os outros

A multidão e os outros - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Meu neto chegou da rua empolgado com o tamanho da manifestação. Fomos juntos para a janela olhar o mundo e conversar. Lá embaixo passava um fluxo de pessoas voltando para casa, muitas de camiseta vermelha, algumas carregando bandeiras de um movimento ou outro. — Cora, o Lula vai ganhar! Eu me lembrei de uma cena parecida, em 1989. O Millôr e eu estávamos passeando e a quantidade de carros com adesivo do Lula era impressionante. Só dava adesivo do Lula. — O Lula vai ganhar! — Não sei, não — respondeu o Millôr. — Mas olha a quantidade de carro com adesivo do Lula... — Estou vendo, mas a quantidade de carro sem adesivo é maior. Era verdade. As bolhas são perigosas, iludem muito. É preciso saber ler o que os olhos não mostram. Quem não quer Lula não será convertido por uma passeata de camisetas vermelhas, por maior que seja. Quem não quer Flávio pode ver um mar de gente de verde e amarelo e nem por isso vai votar nele. A multidão conforta os seus, mas assusta os outros. ——— Não acredito em eleitor indeciso num cenário tão polarizado quanto o nosso. Acho que o eleitor que se diz indeciso sabe muito bem em quem não vota, mas não ama o outro o suficiente para sair de casa (ou talvez para responder com sinceridade às pesquisas). “Virar voto” é uma ideia sedutora, porque permite imaginar que há um grande território a conquistar, mas é também uma ideia arriscada porque se há uma coisa que ninguém suporta, em qualquer lado do espectro político, é gente cobrando voto. ——— Aliás: se eu fosse o presidente Lula esquecia aquela camisa vermelha na gaveta. Não é o voto de quem se veste de vermelho que a esquerda precisa conquistar. Símbolos importam porque são atalhos. Uma cor pode dizer coisas que um discurso inteiro talvez não consiga explicar. Os símbolos unem quem já se reconhece neles, dão coragem e produzem pertencimento. Mas eles também têm uma face oposta. Podem transformar uma causa em uniforme e fazer com que quem está de fora se sinta ainda mais de fora. Em tempos extremos, uma cor não é apenas uma cor. ——— Um Alecrim Dourado entrou numa das minhas redes sociais e me mandou estudar História. Depois que saí da escola nunca mais “estudei” nada; “estudar” pressupõe um certo sacrifício mental. O que eu faço é ler, às vezes obsessivamente, porque um bom livro puxa outro que puxa outro e, quando a gente se dá conta, está há 30 livros no mesmo assunto. Nessa temporada reli “1984” e “A revolução dos bichos”, de George Orwell, emendei “Complô contra a América”, de Philip Roth, “A peste”, de Albert Camus e “M: O filho do século”, de Antonio Scurati. “Não vai acontecer aqui”, de Sinclair Lewis, e “Os afogados e os sobreviventes”, de Primo Levi, estão na fila. ——— Por falar em ler: minha grande dúvida ao ler sobre guerras civis era como eles se reconheciam. Como as pessoas de um lado percebiam que as outras eram do outro lado? O Brasil dos últimos tempos acabou com essa dúvida.

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