A morte do bicheiro Tio Patinhas e a violenta saga dos Garcia

 

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O jogo do bicho suspendeu as apostas em sinal de luto pela morte de um chefe da contravenção no Estado do Rio. Angelo Maria Longa, mais conhecido como Tio Patinhas, foi um dos responsáveis por "organizar" esse mercado ilegal nos anos 1970, criando a "cúpula da contravenção", junto com o "capo" Castor de Andrade. Ele foi também o homem mais rico entre seus pares e cobria apostas que seriam altas demais para bicheiros menores, fazendo papel de um fiador para dar credibilidade ao jogo.

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Quando Tio Patinhas morreu, no dia 16 de março de 1986, há 40 anos, o sócio Waldomiro Garcia e o afilhado Maninho Garcia, filho de Waldomiro, herdaram centenas de pontos de apostas na Zona Sul, na Tijuca e no Centro do Rio, dando início a uma saga marcada muita violência. Chamado de príncipe da contravenção e de "rei do Rio", patrono da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, Maninho seria assassinado em 2004. Mesmo destino tiveram seu filho, seu irmão e um de seus genros.

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Hoje, grande parte dos negócios da família Garcia está nas mãos do bicheiro Bernardo Bello, que foi casado com uma das filhas de Maninho. Acusado de mandar matar Alcebíades Garcia, o Bid, irmão de seu sogro, numa disputa familiar pelo poder, Bello chegou a ser preso, mas agora está foragido. Na série documental "Vale o Escrito: A guerra do jogo do bicho", do Globoplay, o contraventor declarou que está jurado de morte por ninguém menos que Rogério Andrade, sobrinho e herdeiro de Castor.

Tio Patinhas: Um dos fundadores da "cúpula" do jogo do bicho no Rio

Reprodução

Angelo Maria Longa esteve envolvido com a contravenção durante cerca de 50 anos. Supostamente apelidado de Tio Patinhas por guardar muito dinheiro em casa, assim como o famoso personagem de Walt Disney, ele foi, na década de 1970, um dos criadores da cúpula da contravenção, que reuniu os maiores donos de bancas de aposta no Estado do Rio com o objetivo de acabar com as sangrentas disputas entre eles e definir medidas que valeriam para o mercado ilegal que operavam.

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Com a criação da cúpula, a Região Metropolitana do Rio foi dividida em territórios dominados pelos diferentes membros dessa "diretoria". Tio Patinhas, por exemplo, era dono de centenas de pontos de aposta na Zona Sul, na Tijuca e no Centro do Rio, enquanto Castor tinha sob seu poder um império na Zona Oeste. Fizeram parte da cúpula veteranos como Anísio Abraão David, Raul Capitão e Capitão Guimarães. Este, aliás, um ex-policial que entrou no ramo apadrinhado pelo próprio Patinhas.

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Segundo reportagens da época, essa "liga" de chefes do crime também atuava como uma espécie de tribunal penal. Em 1976, eles teriam ordenado o assassinato do bicheiro Euclides Pannar, o China Cabeça Branca. À época presidente da Acadêmicos do Salgueiro, China denunciou na imprensa um esquema de fraude na contravenção. Já em 1981, segundo investigações policiais, a cúpula eliminou o ex-policial Mariel Mariscott, que vinha tentando virar banqueiro do bicho contra a vontade dos chefes.

Apostador conferindo resultado do jogo do bicho na Lagoa em 1988

Bia Marques/Agência O GLOBO

Tio Patinhas era conhecido por cobrir apostas altas demais pra bicheiros menos poderosos, em um esquema até hoje conhecido como "descarga". Quando alguém queria apostar muito dinheiro com um contraventor de menor porte, este bicheiro acionava o Tio Patinhas, que ficava responsável por pagar o prêmio se a pessoa acertasse o palpite, funcionando como um fiador. Por outro lado, se o freguês não acertasse, o contraventor ganhava um gordo percentual do valor apostado.

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Angelo Maria Longa morreu com a saúde debilitada devido a complicações geradas por um câncer. O bicheiro tinha um filho estivador chamado Pedro Sebastião, que não participava dos negócios do pai e morava numa favela na Ilha do Governador. Em entrevista ao "Jornal do Brasil" no velório do bicheiro, esse filho contou que não se envolveu com a contravenção porque tinha um problema cardíaco de nascimento e "não podia correr da polícia nos tempos em que o bicho era perseguido".

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O sócio Waldomiro Garcia, chamado de Miro, e o filho dele, Maninho Garcia, afilhado do Tio Patinhas, herdaram o império do bicheiro. Sempre ao lado de mulheres bonitas nas melhores casas noturnas do Rio, Maninho se envolveu em diversos episódios violentos. Meses após a morte de seu padrinho, ainda em 1986, ele puxou uma briga com um estudante amigo do ator Tarcísio Filho, o Tarcisinho, na cantina La Fiorentina, no Leme. O desafeto do bicheiro levou um tiro e ficou paraplégico.

Shanna Garcia ferida após escapar de atentado em 2019

Guilherme Pinto

Em 2004, Maninho foi executado ao sair de uma academia na Freguesia. O crime não foi solucionado, mas especula-se que o bicheiro travava um disputa pelo controle de máquinas de caça-níqueis. O pai dele faleceu 77 dias depois, de enfisema pulmonar, desencadeando uma guerra pelo comando dos negócios da família. Ao longo dos anos foram mortos o filho, o genro e o irmão de Maninho. Além disso, Shanna Garcia, uma das filhas de Maninho, sofreu uma tentativa de homicídio em 2019.

Hoje, o bicheiro Bernardo Bello, que foi casado com Tamara Garcia, irmã gêmea de Shanna, é quem controla a maior parte dos negócios da família. Ele é acusado de mandar matar Alcebíades Garcia, o Bid, no carnaval de 2020, quando o irmão de Maninho voltava da Avenida Sapucaí. Bello chegou a ser preso na Colômbia, em 2022, mas conseguiu um habeas corpus para responder em liberdade no Brasil. Ano passado, a Justiça decidiu que o réu vai a júri popular, em data ainda não definida.

No fim do ano passado, dois seguranças de Bid foram condenados pela morte do bicheiro. Segundo o Ministério Público, eles forneceram todas as informações necessárias para a execução do crime.

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Hipólito Pereira/Agência O GLOBO

A motocicleta de Maninho no local onde ele foi morto, na Freguesia

Fernando Quevedo/Agência O GLOBO

Bernardo Bello, acusado de mandar matar irmão de Maninho Garcia

Reprodução