A mentira em xeque: o alto custo neurológico de não dizer a verdade

 

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Tudo começou com uma mentira sem pretensões. Em um jantar com conhecidos, quando alguém falou sobre um livro, que Manuel não leu. Mesmo assim, quando lhe perguntaram o que achava, ele disse com um entusiasmo moderado que os personagens eram interessantes. Seus amigos não só não perceberam a mentira, como, a partir desse comentário, o incluíram mais na conversa. Manuel se sentiu mais aceito e até respeitado.

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No mês seguinte, em um almoço com colegas, falou com desenvoltura sobre uma série — que ele não tinha tido tempo de assistir. Dias depois, a história se repetiu quando contou que foi a um bar que nunca tinha ido e, nessa mesma conversa, se viu acrescentando detalhes fictícios a uma história de quando tinha 15 anos.

Em pouco tempo, Manuel falava por padrão sobre coisas que não tinham acontecido, sobre lembranças que havia criado a partir da imaginação. O que começou como uma saída fácil e eficaz para amenizar uma conversa tornou-se um hábito diário.

Ao contrário do que se pensa, mentir não é uma característica biológica nem uma condição de personalidade fixa, mas um comportamento que se aprende e se reforça.

Uma pesquisa da Universidade College London (UCL)demonstrou que contar pequenas mentiras dessensibiliza nosso cérebro em relação às emoções negativas associadas, incentivando-nos a contar mais mentiras e maiores, fazendo com que o hábito se intensifique rapidamente.

— Quando mentimos para obter benefício pessoal, nossa amígdala produz uma sensação negativa que limita o grau em que estamos dispostos a mentir — diz a doutora em Psicologia Experimental pela UCL e principal autora do estudo, Tali Sharot. — No entanto, essa resposta desaparece à medida que continuamos mentindo, e quanto mais ela diminui, maiores se tornam nossas mentiras. Isso pode levar a um efeito dominó, em que pequenos atos de desonestidade escalam para mentiras mais significativas.

O diretor do Instituto de Neurologia de Buenos Aires (INBA), Alejandro Anderson, explica da seguinte maneira:

—A desonestidade aumenta gradualmente com a repetição. No início, mentir gera mais aversão (por estar associado a um risco ou a algo moralmente errado). Com as repetições, esse sinal se atenua e o comportamento se torna mais fácil de escalar. Em linguagem simples: quanto menos você se emociona ao mentir hoje, mais provável é que amanhã você se sinta encorajado a mentir um pouco mais.

Demanda cognitiva

Ao mentir, explica Andersson, é ativada uma rede distribuída de áreas cerebrais. Particularmente:

O córtex pré-frontal lateral: sustenta o controle cognitivo necessário para inibir a resposta verdadeira, manter a versão falsa na memória de trabalho e sustentar a coerência;

O córtex cingulado anterior: detecta o conflito entre o que se pensa e o que se diz;

A insula anterior, associada à intercepção: o sentido interno que permite ao cérebro receber, processar e interpretar sinais do organismo, informando sobre o estado corporal e fisiológico;

O córtex parietal inferior: dependendo do tipo de mentira, pode se envolver em processos de representação mental, relacionados a teorias sobre o que o outro sabe.

A psicóloga Macarena Gavric Berrios afirma que sustentar uma mentira implica uma elevada carga cognitiva, uma vez que a pessoa deve inibir informações verdadeiras, monitorar constantemente seu discurso e antecipar possíveis inconsistências.

— Esse esforço contínuo está associado a uma maior ativação do eixo do estresse, o que pode se traduzir em sintomas como fadiga mental, dificuldade de concentração e irritabilidade. Ao mesmo tempo, a incongruência persistente entre o que se pensa, se sente e se comunica gera uma brecha entre a experiência interna e o comportamento externo, afetando a autoestima, favorecendo a culpa crônica e produzindo uma sensação de falta de coerência interna que impacta negativamente no bem-estar psicológico — afirma a especialista.

— O custo de uma mentira é o que chamamos de contradição — diz o psicólogo Klaus Boueke. — Quem mente o faz em relação ao que reconhece como verdade. Sustentar algo que não bate, não é autêntico, não se sustenta por si só, implica um gasto emocional, energético e intelectual muito alto.

Gavric Berrios explica que viver em um padrão de mentira crônica implica manter o sistema nervoso em um estado de vigilância permanente, com uma hiperativação sustentada do sistema de alerta. A longo prazo, isso causa esgotamento e menor capacidade de regulação emocional.

Quebra de laços

Além disso, ela acrescenta que a discrepância entre a identidade pública e a experiência interna favorece sentimentos de isolamento.

— A pessoa não consegue se apoiar genuinamente nos vínculos quando teme ser descoberta.

Nesse sentido, um dos mitos mais frequentes em torno da mentira é que ela é “inofensiva” desde que não seja descoberta. Os especialistas, no entanto, concordam que, ao operar em níveis muito mais sutis do que os dados concretos, os laços humanos sempre serão afetados quando houver mentiras envolvidas.

— Mesmo que não seja revelada, a mentira interfere tanto nos sistemas neurobiológicos de confiança e apego quanto na confiança implícita e na intimidade emocional, componentes centrais na interação — explica Gavric Berrios. — A autenticidade percebida é fundamental para a proximidade emocional e a sintonia afetiva. Ao ocultar informações relevantes, enfraquece-se a sensação de segurança e a conexão emocional, gerando uma distância afetiva que empobrece o vínculo, mesmo que não seja explícita.

Para Boueke, por sua vez, os vínculos são uma arte em que duas pessoas que falam idiomas diferentes tentam criar um conjunto e mentir, inevitavelmente, rompe essa tentativa de diálogo.

—O impacto dependerá de quem habita esse vínculo. Há pessoas que não conseguem tolerar uma mentira, há quem possa interpretá-la no contexto e há quem não a descubra, mas de alguma forma isso diz respeito à profundidade desse vínculo. O senso comum: mentir não fortalece nenhum vínculo.

Antes de ser uma falta moral, mentir costuma ser uma resposta aprendida: uma forma — às vezes desajeitada, outras eficaz — de se adaptar ao contexto. A resposta para por que alguém mente, apontam os psicólogos, não está em um gene ou em uma característica fixa da personalidade, mas na história pessoal e nos contextos que nos ensinaram, explícita ou implicitamente, quando dizer a verdade era seguro e quando não era.

— Na psicologia social, mentir não é interpretado como um traço moral ou uma característica de ser uma pessoa má, mas como um comportamento complexo que cumpre funções adaptativas em determinados contextos — diz Gavric Berrios.

Entre as razões mais frequentes, a psicóloga identifica as seguintes:

Evitar consequências negativas ou proteger-se de críticas, punições ou conflitos;

preservar a imagem e a autoestima, mostrando competências ou conquistas que podem não ser reais;

obter benefícios, vantagens ou atenção;

encaixar-se em um grupo ou não ferir os sentimentos dos outros por meio de mentiras piedosas;

mecanismo de evasão diante da realidade ou emoções incômodas;

manipulação ou controle, influenciar a percepção e as decisões dos outros.

Ter maior reatividade emocional, impulsividade, busca por novidades, baixa tolerância ao desconforto ou menor sensibilidade à ameaça social, por exemplo, são aspectos que podem facilitar seu uso frequente, explica a especialista em distúrbios do desenvolvimento.

Romper o ciclo

De uma perspectiva clínica, sair da mentira implica, em primeiro lugar, reconhecer que esse comportamento pode ter cumprido uma função adaptativa no passado, mas que atualmente gera mais desconforto do que alívio, compartilha Gavric Berrios.

— O processo requer treinar o sistema nervoso para tolerar a ansiedade e o desconforto que causa dizer verdades parciais ou progressivas, aceitando que não se pode controlar a reação do outro.

A mudança, reconhece a psicóloga, geralmente ocorre de forma gradual e precisa de apoio terapêutico.

Embora nem sempre cause ruído ou gere conflito, o hábito de mentir molda a forma como uma pessoa pensa, se comunica e, em última análise, vive sua existência. Quanto mais se pratica, mais protagonismo assume num campo antes destinado à autenticidade; ocupando o lugar do espontâneo, condicionando a forma de se relacionar e exigindo uma vigilância constante que, a longo prazo, esgota e drena as relações com os outros, mas sobretudo consigo mesmo.