A luta de Trancoso, na Bahia, para manter seu estilo 'rústico chique' intacto
Na entrada do Quadrado de Trancoso, no sul da Bahia, uma placa instalada pela prefeitura quase passa despercebida. Entre as regras impostas no local está a proibição de instalar luzes com cores que não sejam âmbar. A coloração amarelada leva o nome da resina que, na natureza, funciona como uma cápsula do tempo, capaz de preservar fósseis por milhões de anos. Agora, um grupo de empreendedores locais quer encapsular de vez o coração deste distrito de Porto Seguro para que as caracterÃsticas que o tornam único não desapareçam com o crescimento do turismo e a especulação imobiliária.
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Durante o dia, o Quadrado ainda guarda as caracterÃsticas de um pequeno vilarejo do interior. No centro, um campo de futebol improvisado é o palco de jogos de crianças e jovens por horas. No fundo, uma igrejinha da época colonial compõe o cenário tÃpico do interior brasileiro. Mas ao passar das horas, a Trancoso turÃstica vai surgindo: bares, restaurantes e até lojas de grifes começam a abrir.
Com o cair da noite, a luz âmbar das casas surge enquanto o som da natureza e do mar some, substituÃdo pela música ao vivo saÃda de alguns bares. Aos arredores, lojas voltadas para o público de luxo também dão as caras, contrastando com o cenário rústico.
Menos trânsito
O plano Trancoso 30 Anos, projeto da Organização Turismo de Trancoso (OTT), aposta no desenvolvimento sustentável a longo prazo para que o vilarejo à beira-mar não perca sua essência. A ideia é evitar o destino comum a muitos polos turÃsticos, que, com o passar dos anos, se deterioram e perdem a identidade que os elevou a joias. O primeiro eixo atacado pela OTT é a mobilidade urbana, com propostas que vão da redução do número de carros nas imediações do Quadrado à busca por alternativas de transporte público — inexistente no distrito de Porto Seguro.
— É um trabalho desafiador. Costumo dizer que quem planta tâmaras não as colhe, e isso nos dá força para seguir adiante em objetivos de longo prazo — explica a codiretora executiva da OTT, Laura Ramalho. — Também lidamos com muito trabalho informal, algo que é contraproducente para a comunidade.
Casinhas rústicas do Quadrado, a praça principal de Trancoso, distrito de Porto Seguro, no sul da Bahia
Divulgação
Um dos fundadores da organização, Bob Shevlin, sócio do hotel Uxua, faz coro e ressalta que planejar a expansão do turismo local também significa tirar do papel projetos que contemplem os moradores responsáveis pelos serviços na região.
— Uma das principais questões em destinos turÃsticos é a moradia acessÃvel. Quanto maior o sucesso do turismo, menos acessÃveis ficam os terrenos para os moradores. É preciso desenvolver bairros com preços viáveis e infraestrutura básica, como saneamento, transporte, saúde e educação — defende.
Outro integrante da OTT é a Associação Despertar, que atua na formação de jovens para diferentes setores produtivos de Trancoso, do atendimento ao turista à agricultura familiar, responsável por abastecer restaurantes e hotéis do distrito. Kelly Paduin, que comanda a entidade, explica que, até alguns anos atrás, muitos jovens se qualificavam e deixavam o vilarejo em busca de oportunidades em cidades vizinhas. Com o aquecimento do turismo no pós-pandemia e os projetos desenvolvidos pela associação, o cenário mudou.
— Antes, parecia que a riqueza gerada aqui não era para eles. Mostramos que é possÃvel alcançá-la, desde que haja investimento em educação. A comunidade local é que recebe o turista, e o turismo, para ser bom, precisa primeiro ser bom para o morador. Fortalecemos a população local e capacitamos para o mercado de trabalho, para que sejam protagonistas — conta.
Porto do Boi
O guia turÃstico João Vitor Gomes lamenta que os passeios voltados à cultura local ainda sejam pouco procurados. Ele fundou a Associação Cores da Mata, que promove a compensação ambiental de turistas no vilarejo, destinando parte da arrecadação a pequenos agricultores e a iniciativas de turismo de base comunitária. Entre os exemplos está o roteiro Porto do Boi, em uma aldeia Pataxó, onde o visitante pode vivenciar a cultura indÃgena.
— É o turismo consciente que mantém a mata em pé e mostra que é mais potente preservá-la do que destruÃ-la para erguer construções modernas. Temos o Parque Nacional do Pau-Brasil, com cerca de 190km² de mata nativa, incluindo áreas densas. São 12 trilhas que podem ser feitas de bicicleta, de carro ou a pé, com a chance de encontrar uma harpia pelo caminho, a maior ave de rapina das Américas — destaca.
Felipe Grinberg viajou a convite do Uxua.
