A longevidade do modelo universitário

 

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Apesar de estarem sob ataque em várias partes do mundo, universidades têm uma incrível capacidade de sobrevivência, tendo resistido por quase um milênio a pressões externas e conflitos. Como esse modelo institucional foi capaz de resistir por tanto tempo? Essa é a pergunta central de um artigo publicado há duas semanas pelos economistas David Cutler e Edward Glaeser, ambos de Harvard. Para os autores, a resposta está no equilíbrio — nem sempre harmonioso — entre liberdade acadêmica e o controle por entidades administrativas que gerenciam seus recursos, garantindo uma estabilidade que atrai investimentos públicos e privados para essas organizações.

Pelo conceito de universidade trabalhado no artigo — uma cooperativa independente de professores acoplada a uma entidade com controle sobre o capital da organização —, as origens do modelo que se perpetuou a partir do Ocidente estão na Europa Medieval. A primeira instituição a receber esse título surgiu em Bolonha, no século XI, a partir de um coletivo de mestres interessados em garantir que o ensino fosse uma atividade estável, autônoma e reconhecida.

Inicialmente, os diplomas concedidos por essas organizações reconheciam a capacidade de ensinar. O passo seguinte foi a certificação de competências. O prestígio das universidades foi crescendo, mas a relativa liberdade de pensamento concedida a seus membros frequentemente entrava em conflito com autoridades externas ou que comandavam a estrutura organizacional dessas instituições, principalmente religiosas.

À medida que o mundo foi se secularizando, os conflitos de cunho religioso diminuíram, mas não os políticos. Em países já com alguma tradição democrática, as instituições foram mais capazes de resistir a essas pressões. Já em regimes totalitários — como o nazismo, fascismo e o comunismo no século passado —, a liberdade foi mais afetada, mesmo quando os governantes reconheciam a importância dessas instituições para o desenvolvimento científico.

Foi a partir do século XX que as universidades passaram também a concentrar um alto volume de recursos para a pesquisa, como parte da estratégia central de desenvolvimento de países desenvolvidos. Mas os autores destacam, no contexto dos Estados Unidos, que apenas dez universidades americanas respondem por metade dos gastos com pesquisa entre 1997 e 2024. Guardadas às proporções, esta é uma característica comum a vários outros países, incluindo o Brasil, onde a produção acadêmica segue altamente concentrada em poucas instituições públicas.

Voltando ao artigo publicado, os autores destacam que, apesar dos conflitos, universidades geraram imenso valor social. Foi principalmente de seus laboratórios — e não de firmas privadas — que nasceram inovações que, em geral, melhoraram as condições de vida no planeta. Não à toa, sete em cada dez prêmios Nobel são acadêmicos. A autonomia acadêmica é parte fundamental dessa explicação. Um laboratório com fins lucrativos tende a restringir seus investimentos em projetos com maior perspectiva de retorno financeiro, enquanto a pesquisa acadêmica trabalha com um escopo mais amplo de interesses.

Os autores concluem que “a força da forma organizacional da universidade reside em sua capacidade de atrair e capacitar pessoas movidas pela curiosidade. A fraqueza dessa forma é o conflito, inevitável em uma organização híbrida que opõe o corpo docente aos curadores da instituição. (...) Não obstante, ao longo dos últimos 900 anos, as universidades têm um histórico notável de tornar o mundo um lugar melhor, produzindo conhecimento por meio do ensino e da pesquisa”.