A indústria mais assassina da história ataca outra vez
É escandaloso, inacreditável. Procuradores do Ministério Publico Federal de Uberlândia, que deveriam ser defensores dos interesses da população, entraram com uma ação pública exigindo que a Anvisa e o Ministério da Saúde estabeleçam normas de regulamentação para fabricação venda e propaganda dos dispositivos eletrônicos de fumar, vapes ou cigarros eletrônicos. Entre pediatras a reação foi de não acreditar: “só pode ser fake news”, muitos comentaram.
É muito estranha a atitude desses procuradores de Uberlândia. Talvez não seja coincidência que a fábrica de morte da Souza Cruz ou British American Tobacco (BAT) seja lá. O Brasil já tem uma regulamentação muito robusta desde 2009, que foi ratificada a partir de uma grande consulta pública, mantendo a proibição de fabricar, comercializar vender e fazer propaganda de vapes. Com apoio das principais sociedades médicas do país, e a liderança da Sociedade Brasileira de Pneumologia, sob a liderança da dra. Margareth Dalcolmo.
Ela recentemente foi chamada pra falar em nome da Academia Nacional de Medicina do Brasil na Academia Francesa de Medicina, porque os franceses querem rever a liberalização adotada no país, que está levando à morte de crianças e adolescentes por conta dos danos desses dispositivos.
As evidências de que o cigarro eletrônico é extremamente nocivo para a saúde são esmagadoras. Mas os procuradores dizem que é necessária uma regulamentação para que se possa evitar o contrabando e arrecadar impostos, que serviriam para pagar os custos dos danos de saúde.
Ora, esse argumento é burro e falacioso. Estima-se que o Brasil arrecada R$ 8 bilhões com os impostos de cigarros tradicionais. Mas gastamos mais de R$ 150 bilhões por tratar os problemas causados pelo tabagismo: R$ 60 bilhões para tratar as doenças diretamente ligadas ao uso do cigarro, e outros R$ 80 bilhões para cuidar da queda de produtividade causada pelos problemas relacionados ao tabaco. A diferença é brutal.
Deixando claro: a indústria do tabaco lucra enormemente com o vício, a morte e o sofrimento. Levou décadas pra que a ciência provasse o enorme dano causado pelo cigarro tradicional, muito em função das estratégias negacionistas da indústria. Até que o consenso científico se mostrou imbatível. Mas milhões morreram antes disso. O Brasil adotou várias politicas públicas de combate ao tabagismo e foi um dos países mais bem sucedidos nessa luta: houve uma redução espetacular, de 40% da população que fumava há 30 anos atrás para cerca de 10% hoje.
Como o cigarro tradicional ficou ultrapassado e sua percepção social hoje é amplamente negativa, a indústria contra-ataca com o vape. Eles fazem isso mirando nossos jovens, de forma covarde, com propagandas nas redes sociais, saborizantes, formatos divertidos e influencers da moda, visando até mais crianças do que jovens. Aliás são muitos os que começam com oito ou nove anos, e aos 15, já têm o seu pulmão destruído.
Em pouco tempo de uso os cigarros eletrônicos já mostraram o tamanho do problema que causam. Afinal de contas já há relatos, em todos os países do mundo onde podem ser vendidos livremente, de vício extremamente rápido (em poucos dias um adolescente fica completamente adicto, pela alta carga de nicotina absorvida); o pulmão sofre leões graves por seus vários produtos tóxicos, como metais pesados. Há até mesmo uma doença específica, a EVALI, além do DPOC, câncer e muitos outros. Aliás, a ideia de que regulamentar traz "produtos seguros" é enganosa – esses venenos estão em todos os dispositivos.
Além disso, países que regulamentaram continuam com mercado ilegal robusto. A regulamentação e legalização também cria uma porta de entrada para o tabagismo convencional entre jovens — os que que usam vape têm 3-4 vezes mais chance de fumar cigarros convencionais. O Reino Unido enfrenta uma epidemia de uso juvenil — 20% dos jovens de 16-17 anos já experimentaram vapes. O dano ambiental e o lixo tóxico criado por milhões de dispositivos descartáveis é imensurável.
A regulamentação serve apenas para a indústria do tabaco se reposicionar como legítima, e criar novos produtos viciantes para jovens. E matá-los.
A alternativa realmente eficaz é a fiscalização rigorosa. Como Singapura, por exemplo, que mantém proibição total com fiscalização intensa e multas severas. Por lá o resultado é a prevalência mínima de uso.
O Ministério da Saúde e a sociedades médicas têm que se posicionar mais uma vez, para que juntos possamos combater mais um ataque dessa indústria assassina à sociedade brasileira, especialmente a nossas crianças e adolescentes. Não passarão.
