A indústria da ilusão: suplementos podem enganam mais que ajudar

 

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“Mal não faz”, já dizia a vovó sobre as vitaminas. Nossas sábias matriarcas em geral têm razão, mas não nesse caso. Suplementos podem fazer mal sim, e muito. Podem intoxicar, prejudicar, iludir, criar gastos vultosos e desnecessários, e substituir indevidamente o alimento saudável.

A indústria de suplementos movimentou R$ 8 bilhões no Brasil em 2025. Estamos entre os cinco maiores mercados do mundo. Suplementos são regulados como alimentos, não como medicamentos, com menos exigências. Mesmo com a fiscalização da Anvisa a partir de 2024, apreensões de toneladas de creatina e whey adulterados e esquemas bilionários de suplementos fabricados em meio a mofo e sujeira têm aparecido na mídia nos últimos meses.

As crianças são um mercado perfeito. Muitas comem mal (em grande parte por culpa de outra indústria, a de ultraprocessados); e pais ansiosos sempre se preocupam com a alimentação dos filhos, querendo fazer o melhor. Quando alguém diz “você pode fazer mais pela saúde de seu filho”, abre-se uma ferida e a porta para o consumo acrítico.

Nos dois primeiros anos de vida, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda apenas o uso criterioso de vitamina D e ferro. Ômega 3 e vitamina B12 são importantes para crianças veganas. Mas o cardápio de promessas da indústria é vasto: soro para grávidas que aumenta o QI do bebê, remedinho que resolve a birra, melhora o foco, desinflama o cérebro, “turbina” a imunidade, “desintoxica”, faz dormir melhor. Para cada problema complexo da infância — seletividade alimentar, agitação, dificuldade escolar, ansiedade, TDAH — o mercado oferece um milagre. A desinformação vai da marca da blogueira à grande indústria. Há pouco, uma conhecida marca de suplemento nutricional (recomendado para “crianças que não comem bem”, e cujo principal ingrediente são açúcares) fez publicidade prometendo maior crescimento em altura para os “baixinhos”. Uma mentira monstruosa.

A cultura fitness e as redes sociais influenciam cada vez mais as escolhas alimentares. A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta que não existe indicação para o uso rotineiro de whey protein e creatina em crianças e adolescentes saudáveis: as necessidades proteicas são facilmente (e melhor) alcançadas com uma alimentação equilibrada.

No autismo e TDAH, a desinformação atinge níveis alarmantes. Não existe protocolo de suplementos que cure condições neurobiológicas e ambientais complexas. Crianças autistas podem ser seletivas e ter deficiências que exijam suplementação, mas essa deve ser feita individualmente, por médico e nutricionista.

Suplementação séria salva vidas. Ferro previne anemia e é essencial para diversas funções orgânicas. Vitamina D é importante para o metabolismo ósseo e para a imunidade. Zinco ajuda no manejo da diarreia. Vitamina A reduz mortalidade em contextos de risco. Tudo com indicação precisa, avaliação e dosagem personalizada e acompanhamento. Por outro lado, vitaminas A e D em excesso se acumulam no organismo e adoecem. Ferro e iodo em demasia intoxicam. A via intravenosa amplia os riscos: infecção, reação alérgica, sobrecarga.

Se as promessas são milagrosas, a desinformação está presente e explorando a angústia parental. Aliás, a Anvisa proíbe alegações terapêuticas em suplementos.

Desinformação vende muito e cria certezas dignas de seitas. O dióxido de cloro, um alvejante industrial, é vendido no Telegram como MMS (Miracle Mineral Solution), que cura câncer, autismo e faz “detox vacinal”. Quando uma mãe e seu filho sofreram com vômitos e diarreia graves (o produto causa lesões na mucosa intestinal), ela perguntou no grupo o que havia feito de errado.

Crianças ganham saúde com comida de verdade, sono, brincadeira, movimento, afeto e boa rotina. Antes de seguir um “protocolo” vendido nas redes, converse com o pediatra.