A imperdível 'Hal & Harper', com Mark Ruffalo e grande elenco (no Mubi)
Quem procura um drama amargo, mas sem pieguice, e marcado por uma abordagem formal original, não pode perder “Hal & Harper”. A produção independente lançada no Mubi é criada, dirigida e estrelada por Cooper Raiff. Ele vive o Hal do título, o irmão de Harper (Lili Reinhart). São dois atores maravilhosos, e a série tem ainda Mark Ruffalo, como o pai deles, e Betty Gilpin interpretando Kate, a madrasta. Só pelo elenco, já valeria a recomendação, mas há muitos outros motivos para o leitor conferir essa história. São nove episódios de cerca de meia hora.
Acompanhamos uma família sofrida e disfuncional, mas sustentada por afeto profundo (embora ele seja manifestado com frequência de maneiras tortas). A ação se passa nos dias de hoje, com Hal e Harper atravessando conflitos característicos dos 20 e poucos anos. Ele é universitário, ela já trabalha. A mãe dos dois está ausente da história por razões que só serão esclarecidas mais adiante. O pai vive com Betty, que está grávida. A narrativa também mergulha na infância dos protagonistas e suas memórias se entrelaçam ao presente.
Lili Reinhart, Cooper Raiff e Mark Ruffalo/Hal & Harper
Divulgação
Há letreiros indicativos do ano em que os fatos se desenrolam, mas, em vez de distinguir as cronologias, eles reforçam a mistura e exacerbam a dinâmica de causa e efeito. É tudo bem freudiano. A uma certa altura, o Pai relembra a infância dos filhos e diz que “eles tiveram que crescer cedo demais”. Essa afirmação é levada de forma literal: são os atores adultos que interpretam Hal e Harper nas cenas ambientadas na escola primária, na visita a um parque de jogos eletrônicos, e quando vemos os irmãos no quarto da infância, brincando ou conversando. Pode parecer um simbolismo simplista, mas não é nada disso. O deslocamento causa surpresa, desconforto e intensifica o drama. E faz funcionar as intenções do roteiro: carregar o espectador para o abandono emocional experimentado pelos personagens na infância. Nem depois de crescidos, Hal e Harper conseguem se livrar das crianças tristes e desamparadas que eles foram um dia. Assim, vemos Harper com 7 anos fumando, e Hal, aos 5, lendo “Cem anos de solidão” antes de dormir. Não é literal, é alegórico.
A série tem pouquíssimos personagens, o que ajuda a tornar as emoções mais concentradas. Concentradas, aliás, é um eufemismo. A sensação que o espectador tem é de que os personagens estão em carne viva. O eixo central da trama é a relação de codependência entre os irmãos. Mark Ruffalo domina o papel do homem deprimido, calado, que não conhece a linguagem do afeto paterno por pura inaptidão. Ele chega a fazer uma “cola” com uma lista de perguntas banais para os filhos ao buscá-los na escola (“como foi a aula?” ou “o que você comeu de almoço”?).
Lili Reinhart, Cooper Raiff e Mark Ruffalo/Hal & Harper
Divulgação
Ninguém é totalmente mau, mas o mundo é cruel para a família inteira. Todos têm falhas. O roteiro é cheio de lacunas também — essas, sim, propositais. Vale ir até o fim para ver o quebra-cabeças pronto.
