Corvo, a menor ilha dos Açores, desliga a iluminação pública nas noites críticas para que jovens cagarros cheguem ao mar, numa ação da SPEA com a câmara local Quem passa pelos Açores no fim de outubro vê uma cena rara na Europa: a ilha do Corvo, a menor do arquipélago, desliga a iluminação pública à noite.
A medida acompanha a época em que os filhotes do cagarro, ave marinha típica da região, deixam o ninho e fazem o primeiro voo rumo ao mar. Nesse momento, a luz artificial pode ser fatal para eles.
O Corvo apaga as luzes porque os jovens cagarros saem do ninho à noite e são atraídos pela iluminação artificial, que os tira da rota do oceano. A iniciativa é da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) com a Câmara Municipal do Corvo, como mostra o comunicado Corvo volta a apagar as luzes para salvar aves marinhas, da SPEA.
A ilha tem uma única vila, com cerca de 500 moradores, e é Reserva da Biosfera. Segundo o Instituto de Astrofísica de Canarias (IAC), o Corvo tem a maior população de cagarros dos Açores em relação ao seu tamanho.
Ele também abriga 35% da população regional de frulho, outra ave marinha. Os moradores apoiam a medida.
Numa consulta da SPEA com 207 habitantes, todos se disseram a favor do apagão, segundo o comunicado Ilha do Corvo apaga a iluminação pública para salvar aves marinhas. Desde 2017, o município já desligava as luzes nos períodos críticos da campanha SOS Cagarro.
A poluição luminosa atrai os juvenis, que ficam ofuscados e perdem a direção do mar. Sem experiência, o cagarro (Calonectris borealis) acaba caindo no chão e muitas vezes não consegue levantar voo de novo, descreve a SPEA.
No solo, a ave fica à mercê de cães e gatos e corre risco de bater em prédios, fios e carros ou de morrer desidratada. A SPEA estima que cerca de 1.100 aves marinhas morram por ano por causa da luz artificial na Macaronésia, região que reúne Açores, Madeira e Canárias.
Essa vulnerabilidade vem do modo de vida da espécie: o cagarro faz ninho em tocas no solo, se orienta pelas estrelas e se alimenta à noite, segundo o IAC. Outras aves marinhas que dependem de ilhas isoladas para criar filhotes enfrentam riscos parecidos no Atlântico.
Ave considerada extinta por quase 300 anos reaparece e volta a criar filhotes em ilha onde não se reproduzia desde os anos 1600➔ O apagão completo fica restrito aos dias em que mais filhotes deixam os ninhos, e o calendário muda a cada ano.
Em 2022, a câmara desligou a iluminação pública a partir das 21h entre 24 e 30 de outubro, segundo a SPEA, que falava no quarto ano seguido da medida. Nos dias anteriores e posteriores, o corte foi parcial: as luzes apagaram a partir da 1h entre 21 e 23 de outubro e entre 31 de outubro e 10 de novembro.
Em outra edição, o comunicado Açores apagam as luzes para salvar cagarros previu apagão geral de 27 a 31 de outubro, a partir das 21h, e de 1º a 9 de novembro, a partir da meia-noite. O apagão no Corvo coincide com a campanha SOS Cagarro, coordenada pela Direção Regional das Políticas Marítimas do governo açoriano.
Voluntários recolhem as aves caídas e as devolvem ao mar com o lema “Salve um Cagarro. Faça um Amigo!”, informa o comunicado Açores voltam a apagar luzes para salvar aves marinhas.
Outras localidades participam com cortes parciais. Na ilha de São Miguel, Vila Franca do Campo, Povoação e a freguesia de Faial da Terra reduzem ou desligam luzes da costa e dos portos, assim como a Lotaçor.
No Corvo, a SPEA registra o apagão total da iluminação pública durante a campanha. Desde julho de 2021, o Corvo conta com dez sensores que medem a escuridão do céu e o avanço da poluição luminosa sobre as áreas naturais.
A rede integra o projeto EELabs, liderado pelo IAC e com a SPEA entre os parceiros. O astrônomo Miquel Serra-Ricart disse ser “muito provável” medir ali a escuridão natural do céu noturno.
A ilha também trocou as lâmpadas antigas por LEDs de luz quente, de 3000K, que podem baixar para 2700K. As luminárias apontam para baixo, não têm cobertura de vidro e podem perder até 75% da intensidade nos períodos críticos, segundo o IAC.
O presidente da câmara, José Silva, previa um regulamento municipal sobre o tema. Quem visita os Açores nessa época e encontra um cagarro caído deve levá-lo a um dos hotéis de cagarros indicados pela SPEA.
São pontos com caixas vazias para recolher a ave ou deixar uma já resgatada, no Corvo, na Graciosa, no Faial e em São Miguel. Depois, mande uma mensagem ao responsável pelo ponto com os detalhes do resgate e confira as datas de cada ano nos comunicados oficiais da SPEA.
Se você gosta de ilhas que viram laboratório a céu aberto, a história de Surtsey, na Islândia, mostra como plantas e aves ocuparam uma terra que acabava de surgir do mar. Uma ilha surgiu do mar em 1963 diante de pescadores e cientistas, e em poucos anos plantas e aves já começavam a ocupar a rocha recém-formada➔
O Antogonista