A inteligência artificial generativa opera na nuvem, mas respira gigawatts no chão de fábrica da economia digital. Segundo análises da Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo global de eletricidade de data centers deve mais que dobrar até 2030, aproximando-se da marca de 1.000 TWh anuais, impulsionado pela computação intensiva de servidores acelerados (GPUs) para treinamento e inferência de modelos de IA. Esse avanço acelerado inaugurou um choque de realidade na transição energética: não basta substituir a matriz fóssil legada; é preciso atender a uma demanda contínua, massiva e concorrencial por eletricidade descarbonizada. Para o Brasil, cuja matriz elétrica conta com mais de 80% de fontes renováveis, abre-se uma janela geopolítica singular - cercada, contudo, por restrições operacionais severas.
O apetite do mercado reflete essa corrida. Dados do Ministério de Minas e Energia (MME) e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apontam que os pedidos de conexão à rede elétrica para projetos de data centers já superam a marca de 38 GW em potência demandada, com mais de 7 GW já formalizados ou com pareceres favoráveis emitidos. Todavia, a conversão desse interesse em polos sustentáveis de processamento esbarra em exigências regulatórias mandatórias e na física do Sistema Interligado Nacional (SIN). O primeiro desafio é técnico: data centers operam em regime ininterrupto (24/7), exigindo estabilidade extrema de tensão e fator de carga próximo a 100%. Embora o parque gerador brasileiro apresente forte expansão solar e eólica, a volatilidade intradiária dessas fontes, os episódios recorrentes de curtailment e a baixa maturidade regulatória para adoção de baterias de grande escala (BESS) limitam a entrega de energia firme sem o acionamento de térmicas fósseis nos horários de ponta. Essa complexidade transfere o protagonismo para a governança institucional e o planejamento setorial. Conectar blocos massivos de carga concentrada exige que o ONS, a EPE e a ANEEL antecipem reforços na malha de transmissão, aprimorem o dimensionamento locacional e estruturem leilões de reserva de capacidade que remunerem serviços ancilares e flexibilidade operativa. Sem diretrizes claras de planejamento de rede e agilidade no licenciamento ambiental, o país corre o risco de ver prazos de conexão inflacionarem e de socializar custos sistêmicos com o consumidor cativo, transformando a vantagem competitiva da matriz em um gargalo de execução. No pilar ambiental, pesquisas como as da Universidade da Califórnia alertam para a pegada hídrica da refrigeração evaporativa desses complexos sobre bacias sob estresse hídrico. Em paralelo, a evolução das normas de reporte (como ISSB/IFRS e as diretrizes do GHG Protocol) e a iniciativa da ONU Energia para o 24/7 Carbon-Free Energy Compact tornam obsoleta a mera compra anual de certificados descolados no tempo (RECs), exigindo rastreabilidade horária e geográfica real do consumo de elétrons verdes.
No vetor socioeconômico, paira o risco de o país atuar apenas como hospedeiro de infraestruturas hiperintensivas em capital e eletricidade, mas de baixo transbordamento tecnológico e reduzida geração de postos de trabalho permanentes. A política pública em formulação, como o Regime Especial de Tributação para Data Centers (REDATA) e o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), não pode se resumir a incentivos fiscais; deve impor contrapartidas contratuais de investimento em P&D local, eficiência energética e hídrica (métricas PUE e WUE) e desenvolvimento de capacidades nacionais.
Atrair a infraestrutura da inteligência artificial exige mais do que elétrons verdes abundantes: demanda a capacidade de integrar expansão física de transmissão, governança ambiental auditável e visão estratégica de soberania de longo prazo. Fontes: “Optimization of Data Center Power Systems Using Energy System Design”. Disponível em: https://manuals.plus/m/b994be68cc7812b5c15129f9fbb0bd5902336cdfaec465546d467855ccaf7a3d#google_vignette “Brasil tem 38 GW de pedidos para acesso à rede de energia para data centers”. Disponível em: https://convergenciadigital.com.br/governo/brasil-tem-38-gw-de-pedidos-para-acesso-a-rede-de-energia-para-data-centers/#:~:text=Ministro%20de%20Minas%20e%20Energia%2C%20Alexandre%20Silveira%2C,junho%20de%202026.%202%20minutos%20de%20leitura. Siddik, M. A. B., Shehabi, A., & Marston, L. (2021). The environmental footprint of data centers in the United States. Environmental Research Letters, 16(6), 064017. “Scope 2 Guidance”. Disponível em: https://ghgprotocol.org/scope-2-guidance “24/7 Carbon-free Energy Compact”. Disponível em: https://www.un.org/en/energy-compacts/page/compact-247-carbon-free-energy “Balanço Energético Nacional 2026”. Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/balanco-energetico-nacional-2026 Sobre a autora Gláucia Fernandes é Professora Adjunta de Finanças do COPPEAD/UFRJ. Possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), mestrado em Economia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e doutorado em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), instituição com a qual fez o Pós-Doutorado. Foi Visiting Scholar no Departamento de Finanças da McCombs School, na Universidade do Texas em Austin. Lecionou no MBA executivo em administração: negócios do setor elétrico da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o qual também foi coordenadora. Atuou por 5 anos como pesquisadora de energia do centro de pesquisa FGV Energia. Apresentou artigos em importantes conferências nacionais e internacionais, bem como publicou artigos em importantes journals. (*) Disclaimer: Este artigo reflete a opinião do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.
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