A hora e a vez da IA na campanha: como os jingles impulsionam candidatos
As paródias, que durante anos facilitaram e reduziram os custos de produção de jingles, estão proibidas pela Justiça Eleitoral desde 2024 - assim, os pré-candidatos já estão procurando alternativas para fixar seus nomes junto ao eleitorado e alimentar as redes sociais. Neste cenário, a inteligência artificial surge como alternativa, especialmente para candidatos às eleições proporcionais, que costumam ter menos recursos para investir na produção musical.
Enquanto uma canção de campanha com composição, vocais e arranjos inéditos, gravada em estúdio, pode custar mais de R$ 10 mil - e campanhas presidenciais ultrapassam e muito este valor -, jingles simples podem ser com comprados pelas redes sociais por menos de R$ 50.
A publicitária Natália Mendonça diz que já criou jingles com ferramentas sintéticas ainda nas eleições de 2024. Para ela, neste pleito, a IA será utilizada de forma mais frequente e estratégica. "Não eram as músicas oficiais que iam para as minhas campanhas, mas eram as músicas que iam para o carro de som na rua, que iam agitar a galera num bandeiraço. Tem muitas possibilidades e traz, à s vezes, até um nÃvel de produção e uma quantidade de produção que as campanhas nem fariam se tivessem que contratar isso como música", destaca.
Tecnologia divide músicos e marqueteiros
A música autoral, no entanto, não perde espaço. Para o músico e produtor (JAN) Can Kanbay, com experiência de produção de jingles para candidatos a deputados, vereadores e senadores de vários estados, a popularização das ferramentas diminui o valor que pode cobrar por trabalho, mas também lhe dá mais tempo para produzir mais. "A IA me oferece um arranjo completo. Então, posso refazer tudo do meu jeito ou utilizar, por exemplo, só a bateria gerada pelo site de conteúdo generativo. AÃ, eu faço o resto", explica.
"Às vezes, o que eu levaria uma hora para fazer, resolvo em 10 segundos. E quando a gente está, digamos, com prazo apertado para entregar o trabalho, cada hora economizada vale", ressalta.
Para Ramon Quadros, fundador da gravadora Jingle Online, apesar da rapidez e praticidade, as ferramentas ainda não conseguem transmitir a mesma emoção de uma música de campanha criada por humanos. "A gente cria tudo do zero, começando por fazer uma guia para o cliente e após a aprovação, criamos tudo do zero. Criamos letra, melodia, todo o instrumental, vocal, backing vocal, gravados... tudo do zero", diz.
"A gente não usa IA porque, em especial a voz, é sem alma, sem coração", defende.
A nova cara dos jingles polÃticos
O publicitário Paulo Vasconcelos Rosário, que está coordenando a comunicação da pré-campanha de Ronaldo Caiado (PSD), ressalta que os jingles já não têm mais o mesmo impacto nas campanhas à presidência. Para o consultor, esse recurso deve ser utilizado com moderação para evitar a perda de autenticidade e diferenciação no debate polÃtico.
"O jingle é uma peça que caiu um pouco em desuso nas campanhas majoritárias, né? Eles foram peças muito importantes na história. De lá pra cá, a música passou uma sensação para eleitor, em alguns casos. Então, ele tá sendo ali meio que manipulado. Ele falou: 'peraÃ, eu tenho que votar no candidato? Pela musiquinha é que não será'. Então, tem sido usado como moderação e no tempo certo", ressalta.
O papel da música nas eleições de 2026
As equipes de pré-campanha estão definindo o tom e os formatos de comunicação dos candidatos, e um dos pontos centrais é justamente o uso da inteligência artificial como ferramenta estratégica. Marqueteiros evitam revelar suas estratégias, mas já recorrem à tecnologia para produzir vÃdeos, locuções e músicas. Na pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL), por exemplo, jingles produzidos por apoiadores já vêm sendo utilizados em eventos.
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No caso de Lula (PT), o cuidado é maior para evitar propaganda antecipada. Por isso, as equipes não estão usando músicas e jingles de apoiadores. Ainda assim, simpatizantes seguem criando conteúdos espontaneamente, como o músico e produtor de jingles Juliano Maderada, que afirma não utilizar inteligência artificial em suas composições.
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O uso de tecnologia para gerar imagens, vÃdeos e áudios artificiais tem regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O responsável pela propaganda deve informar a utilização de conteúdo sintético multimÃdia, de modo explÃcito, destacado e acessÃvel. A novidade deste ano é a proibição de publicar ou repostar, com ou sem impulsionamento, conteúdos gerados por IA nas 72 horas que antecedem o pleito e nas 24 horas depois da votação.
