Em Óbidos, vila medieval portuguesa a cerca de uma hora de Lisboa, um hotel de 27 quartos abriga uma coleção de quase 100 mil livros. Considerado por seus proprietários como o maior hotel literário do mundo, o The Literary Man tem uma particularidade: os hóspedes podem ler, trocar, doar e até levar exemplares para casa sem pagar.
“O máximo que pode acontecer é lerem, qual é o problema?”, afirma Marta Garcia, responsável pelo empreendimento, em conversa com a coluna GENTE. A proposta é transformar a hospedagem em uma experiência literária, na qual os livros não servem apenas como decoração, mas fazem parte da rotina dos visitantes.
Agora a coluna GENTE também está no Instagram. Siga o perfil @veja.gente
A história do edifício, no entanto, começou muito antes dos livros ocuparem seus corredores. Construído no século XIX, com partes que remontam a 1832, o imóvel foi originalmente planejado para abrigar um convento de freiras, projeto que nunca chegou a se concretizar.
Depois de funcionar como residência particular, tornou-se uma hospedaria conhecida como Estalagem do Convento. Na década de 1980, o pai de Marta, Luís Otávio de Sousa Garcia, assumiu o empreendimento e ampliou os quartos, o restaurante e as áreas comuns.
Foi somente em 2015 que a família decidiu reinventar o espaço e transformá-lo em um hotel dedicado à literatura. A mudança exigiu um investimento significativo em livros, muitos deles importados dos Estados Unidos e da Inglaterra.
“Foi um trabalho complicado, porque as editoras portuguesas não nos ajudaram na altura”, conta Marta, ao explicar a predominância de obras em inglês nas estantes. Desde então, a coleção passou a crescer também por meio de doações e trocas feitas pelos próprios hóspedes.
Em uma das maiores doações recebidas, o hotel ganhou mais de 2 mil exemplares de medicina, todos em espanhol, pertencentes à biblioteca particular de um médico. “Isto é uma biblioteca que está sempre em grande movimentação.
Não é uma coisa estanque”, explica. Continua após a publicidade
Diferentemente das bibliotecas tradicionais, no The Literary Man não há obrigação de silêncio nem restrições para manusear os exemplares. Os livros estão espalhados pelos corredores, quartos, áreas de convivência e pelo restaurante Book & Cook.
Há também um espaço dedicado às crianças, com estantes baixas para facilitar o acesso. Segundo Marta, é comum encontrar filhos lendo enquanto os pais jantam.
“Dizer que as crianças não leem e que não estão interessadas em literatura não é verdade. Nós temos aqui a prova”, afirma.
Além dos turistas, o hotel recebe escritores em busca de concentração e grupos dedicados a retiros literários, realizados duas ou três vezes por ano. Marta relembra o caso de um escritor que passou três dias hospedado no local apenas para trabalhar em um livro, longe das distrações de casa.
A manutenção do edifício histórico também exige cuidados constantes: em 2024, o hotel fechou durante aproximadamente um mês para reformar parte dos quartos. Apesar das mudanças, a intenção é preservar o caráter familiar da antiga hospedaria.
“Este não é um hotel de cadeia. É um hotel muito peculiar, com características próprias.
Com os aromas e os cheiros característicos quando andamos nos corredores”. Para a proprietária, essas particularidades, que incluem a ausência de elevadores e as limitações estruturais de um edifício histórico, são parte da identidade do lugar.
Continua após a publicidade The Literary Man hotelGiovanna Fraguito/VEJA
Continua após a publicidade The Literary Man hotelGiovanna Fraguito/VEJA
Publicidade
Notícias Veja