'A guerra do Irã evidencia a necessidade da transição energética', diz analista Stela Herschmann

 

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Os efeitos de curto prazo da guerra do Irã podem gerar um estímulo para produção de petróleo fora do Golfo Pérsico, mas no longo prazo só a expansão da energia renovável trará estabilidade e segurança a economia do planeta, afirma a analista Stela Herschmann.

Advogada com longa experiência em licenciamento ambiental e litigância climática, ela é hoje especialista em política climática do Observatório do Clima, maior coalizão de ONGs do Brasil. Ela argumenta que essa visão sobre a incursão militar dos EUA e de Israel não leva em conta apenas o ponto de vista ambiental.

— A guerra acontece em um cenário em que a transição energética é inevitável — diz. — Esse caos geopolítico que a gente está vendo, junto com as ameaças a que essa guerra nos expõe, reforça a percepção de que num mundo baseado em energias renováveis a gente teria menos riscos.

Herschmann é coautora do estudo internacional divulgado nesta semana que mapeou as iniciativas já existentes para planejar a descarbonização de economias. Em entrevista ao GLOBO, ela fala sobre como o conflito no Irã deve influenciar o movimento por um "mapa do caminho" da "transição para longe dos combustíveis fósseis", promessa que as conferências do clima da ONU ainda não cumpriram.

- Como a guerra do Irã e a subida dos preços do petróleo vão influenciar o debate sobre o fim dos combustíveis fósseis, que entrou em uma fase importante agora?

A guerra acontece em um cenário em que a transição energética é inevitável. Isso está ficando cada vez mais claro. Os países estão cada vez mais avançando nos seus planos, nas suas iniciativas, ainda que pontuais, cada um à sua maneira, para tratar dos combustíveis fósseis. Isso tem ficado cada vez mais evidente.

Mas o mundo também ainda tem planos no sentido contrário. Os países têm planos de produção de carvão, petróleo e gás que gerariam mais do que o dobro daquilo que o planeta pode acomodar para evitar um aquecimento de 1,5°C. Esta guerra deixa ainda mais evidente a necessidade dessa transição.

Mas a gente se afastar dos combustíveis fósseis é também uma maneira de a gente caminhar na direção de um mundo mais seguro e mais estável. Esse caos geopolítico que a gente está vendo, junto com as ameaças às quais que essa guerra nos expõe, reforça a percepção de que num mundo baseado em energias renováveis, a gente teria menos riscos. A gente teria menos risco de invasões de superpotências, teria mais segurança energética e teria menos fragilidades econômicas, porque a economia hoje é baseada em petróleo.

- Há algum sinal de que os governos vão pensar com essa lógica? A reação à guerra não pode ser a de que, se o petróleo está escasso, ganha o jogo quem garantir o seu?

A guerra tira a atenção do que a gente deveria estar discutindo, que é a maneira com que a gente vai fazer essa transição energética. A guerra chama atenção para outras coisas, como um incentivo para a militarização, por exemplo, no curto prazo. Mas no médio e longo prazo pode ter outro efeito. Do ponto de vista econômico, por exemplo, se os países não se convencerem pelo argumento climático de que eles deveriam transicionar para energia renovável por ela emitir menos CO2, talvez se convençam pelo impacto econômico.

O preço do barril de petróleo vai fazer a inflação disparar, inevitavelmente. A gente já viu isso em 2022 com a invasão da Ucrânia. E a inflação disparando empurra pessoas para a pobreza, sobretudo em países que já têm dificuldades, por dependerem muito de importar essa commodity. Mas isso afeta o crescimento econômico do mundo inteiro.

Isso deveria ajudar no convencimento dos tomadores de decisão sobre a necessidade da transição energética. Ela significa mais segurança econômica, mais segurança energética e menos risco do ponto de vista de segurança nacional.

- Como fica a Petrobras nesse contexto? O aumento do preço vai ser comemorado pelos acionistas, e só?

Existe uma visão de curto prazo também. Eles não fazem o raciocínio completo sobre a vulnerabilidade, que seria o raciocínio de aproveitar a oportunidade para fazer os investimentos que são necessários.

No curto prazo, do ponto de vista de exploração de petróleo e de lucro para a empresa, talvez isso possa ser visto como uma coisa boa. No longo prazo, se a gente não muda essa mentalidade, a gente continua com as nossas fragilidades. E também tem a questão de que o Brasil produz o petróleo, mas importa a gasolina, o diesel, derivados. Então, a gente vai ver esse impacto nas bombas, como a gente já está vendo no diesel, e vai ver isso afetar as atividades econômicas que dependem desses combustíveis.

- O atual presidente da conferência do clima da ONU, a COP30, André Corrêa do Lago, prometeu criar condições para os países desenharem o tão esperado "mapa do caminho" nas próximas edições do encontro. O trabalho deles está alinhado com o que o estudo de vocês aponta para a transição energética ocorrer de fato?

Sim. Nosso estudo é a primeira publicação que se propõe a dizer o que o mapa do caminho deve ter. Ele tenta entender como desenhar ele de maneira que seja efetivo, seja no nível global, nacional, ou a partir de várias lições e estudos de caso. O estudo oferece esse repositório de lições para várias oportunidades que a gente tem ao longo desse ano, de discutir e aprofundar esse debate, e de tratar da implementação. Como a gente vai superar essas barreiras sistêmicas?

A COP30 criou uma onda que a gente tem que surfar em 2026 para conseguir popularizar esse debate. O momento é importante tanto para coordenação global quanto para as iniciativas nacionais. Então, se o Brasil anunciou que vai fazer um mapa do caminho, então este é o momento de a gente colocar pressão para que isso saia do papel.

- O que podemos esperar da conferência de Santa Marta, na Colômbia, que reúne em abril países favoráveis ao 'mapa do caminho', mas fora dos trilhos oficiais?

Os organizadores da conferência de Santa Marta já anunciaram que ela não vai ser um espaço de negociação, e ela não vai se sobrepor a outras iniciativas que já existem. Ela é um espaço de coordenação entre atores que estão dispostos a andar rápido nesse assunto. Existe uma coalizão dos dispostos, que saiu da COP30, mas que não está formalizada. Ela poderia ser formalizada em Santa Marta.

Esses países estão assumindo o compromisso de cada um fazer o seu mapa do caminho e institucionalizar essas discussões. Mas a gente gostaria de ver compromissos práticos dessa coalizão para colocar pressão, inclusive, nos países que não estão, não forem para Santa Marta, mas que têm intenções e querem estar alinhados com essa transição.

- O estudo de vocês lista só 46 países que têm já algum planejamento para descontinuar a energia fóssil no futuro, mas a coalisão formada na COP30 tem mais de 80 países. Essa vai ser a oportunidade de fechar a lacuna?

Em Santa Marta não necessariamente vão estar esses 80 países, mas a gente espera que tenha um número significativo. O que a gente mostra no nosso estudo é que já existem países com planos de descarbonização do setor energético. Um país está falando de encerrar uso do carvão, por exemplo, outro quer reduzir o fornecimento de combustíveis fósseis...

Alguns querem atacar o problema reduzindo a oferta, outros a demanda. Vários estão falando de eletrificação, outos estão falando de melhorar a eficência de sistemas de aquecimento e refrigeração. São planos que, individualmente, atacam certos aspectos do problema.

Olhando para esse agregado, esse conjunto de planos, nós percebemos que há muitos elementos necessários que já estão colocados. Existem lições que a gente pode aproveitar, e a gente procurou reunir essas lições para ajudar os países que queiram fazer um roteiro de descarbonização olhando de maneira mais ampla para toda a economia.

Já existem, dentro o Acordo de Paris, as contribuições nacionalmente determinadas (NDCs), os documentos com as metas climáticas de cada país. Um plano mais geral de descarbonização pode complementar a NDC, mas também pode ir além dela. Ele pode ter um horizonte temporal muito mais amplo que o das NDCs, que a Convenção do Clima da ONU cobra de 5 em 5 anos.

- Vocês consideram que o Brasil já tem algo que possa ser chamado de mapa do caminho para a transição para longe dos combustíveis fósseis? Ou seria o mapa do mapa?

A gente fala da experiência brasileira se referindo a ela como sendo um início de processo, a partir do anúncio do presidente Lula. A gente ainda não sabe se esse processo vai ser feito da maneira correta, mas que quando a gente combina vários ministérios na mesma iniciativa, já é um bom indício da abordagem ampla da economia que será necessária. Essa liderança política pode acelerar os planos.

- Com Santa Marta desviando as atenções das COPs, que são os espaços oficiais para discutir o clima global, que papel sobra para esas conferências da ONU?

Os espaços multilaterais dão passos que são muito mais demorados, mas nós ainda precisamos desse tipo de coordenação internacional. Se se os países agirem sozinhos, o processo fica mais arriscado. Quem se mover primeiro pode acabar sendo prejudicado nos resultados.

Então, a COP ainda é um espaço que a gente tem que mirar. A gente precisa tentar avançar e institucionalizar o debate da transição para longe de combustíveis fósseis ali dentro daquele espaço também. O mundo ideal é que isso tudo fosse decidido entre todos os países numa COP, mas a gente sabe como o avanço ali é demorado. É um espaço que está muito polarizado. A gente também aborda no nosso estudo a questão do financiamento. Você não vai ter um avanço em objetivos e sinais políticos relevantes se você não tiver essa discussão acoplada com o financiamento.