Coube a Carlos Bolsonaro dizer, entre lágrimas, a frase que o resto do clã evita: “desculpa, pai, a gente falhou”. É o mais sincero dos irmãos, e mesmo assim parou no meio da confissão.
O pedido de perdão tinha um único destinatário, e não era o brasileiro. E o país tem motivos de sobra para cobrar.
A família não falhou só no domingo (25), quando Flávio perdeu a eleição presidencial. A falha vem de longe e tem vítimas com nome, CPF e atestado de óbito.
Em 2020, enquanto o mundo corria atrás de imunizantes, ofertas da Pfizer ficaram sem resposta no governo Jair Bolsonaro. A CPI da Covid mostrou o descaso.
Mostrou também a pressa suspeita na negociação da Covaxin, vacina mais cara e sem aval da Anvisa. O presidente receitava cloroquina, desdenhava das máscaras e dizia que não era coveiro.
O Brasil passou de 700 mil mortos. Não há campanha eleitoral capaz de apagar esse número.
Bolsonaro construiu a carreira ofendendo. Disse preferir um filho morto a um filho gay.
Mediu quilombolas em arrobas. Foi condenado por dizer a uma deputada que ela não merecia ser estuprada.
Os filhos herdaram o sobrenome e o repertório, e o eleitor que eles precisavam conquistar se lembrou disso. Carlos foi apontado em investigações como o cérebro da máquina digital do pai, a estrutura que ficou conhecida como “gabinete do ódio”.
Dessa engrenagem saíram ataques sem provas às urnas eletrônicas. O resultado foi a inelegibilidade de Jair, decretada pelo TSE em 2023.
Depois veio a condenação pelo STF por tentativa de golpe de Estado. Quem semeia desconfiança na democracia não pode se surpreender quando colhe derrota dentro dela.
Eduardo foi para os Estados Unidos em 2025 e, de lá, trabalhou contra o próprio país. Segundo a PGR, ele estimulou o tarifaço americano sobre as exportações brasileiras, a suspensão de vistos de ministros do STF e as sanções da Lei Magnitsky.
O objetivo era livrar o pai da condenação. Quem pagou foram exportadores, produtores e trabalhadores, inclusive em Santa Catarina, estado que Carlos vai representar no Senado.
Eduardo perdeu o mandato por faltas e foi condenado por unanimidade pelo STF por coação no curso do processo. Derrotado nas urnas, o candidato do clã repetiu o roteiro do irmão.
Saiu do país em operação secreta, depois de descumprir ordem do STF para entregar os passaportes, e desembarcou em Miami com a esposa e as filhas. No vídeo emocionado, Carlos não disse uma palavra sobre isso.
A família que prometia salvar o Brasil termina 2026 com o patriarca em prisão domiciliar, um filho condenado no exterior e outro fugido. Carlos tem razão: eles falharam.
Falta admitir que tudo isso começa quando todos nunca respeitaram a constituição.
Metropoles