Primeiro vieram os cafés funcionais.
Depois, as gomas, os shots, as receitas hiperproteicas e uma infinidade de produtos que prometem tornar a rotina de cuidados com o corpo mais prática e, por que não, mais instagramável.
Agora, a novidade que circula nas redes tem uma aparência curiosamente pouco glamourosa: uma geleca vermelha vendida em pequenos sachês.
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Quem ajudou a colocar o produto no radar foi Kylie Jenner, que apareceu consumindo o Coleology Cutting Jelly, da marca sul-coreana Foodology.
Em pouco tempo, o suplemento passou a despertar a curiosidade de consumidores que chegaram até ele por vídeos de rotina, conteúdos sobre alimentação e postagens relacionadas a bem-estar e controle de peso.
A lógica é conhecida: quando um produto aparece associado à rotina de uma celebridade, ele deixa de ser apenas um item de consumo e passa a carregar parte daquele imaginário.
A embalagem, a textura, a praticidade e, sobretudo, a associação com um determinado estilo de vida ajudam a transformar um suplemento em objeto de desejo.
"Quando um produto aparece nas mãos de uma celebridade, ele deixa de ser percebido apenas como um suplemento e passa a fazer parte de um estilo de vida.
O consumidor pode acreditar que existe uma relação direta entre aquele produto e o corpo daquela pessoa, quando, na verdade, existem inúmeros outros fatores envolvidos.
Essa associação precisa ser vista com muito cuidado", afirma Bruna Manes, médica com pós-graduação em Nutrologia e Endocrinologia.
O novo luxo é parecer 'fit'?
Há uma estética própria por trás da atual cultura do bem-estar.
Produtos que antes ficavam restritos a lojas especializadas passaram a ocupar espaço em vídeos de rotina, nécessaire, bolsas e cozinhas cuidadosamente fotografadas.
O que se consome importa tanto quanto a maneira como esse consumo é apresentado.
A geleca de Kylie Jenner se encaixa perfeitamente nesse universo.
Pequena, prática e visualmente inusitada, tem características que favorecem a circulação nas redes: desperta curiosidade e, ao mesmo tempo, está associada ao vocabulário da beleza, da alimentação saudável e do controle corporal.
Suplemento consumido por Kylie Jenner viraliza; entenda o que há na 'geleca'
Reprodução Instagram
Mas viralidade não é sinônimo de eficácia.
"O fato de um produto ser popular, caro, importado ou utilizado por uma pessoa famosa não determina a sua eficácia.
Precisamos analisar a composição, a quantidade de cada ingrediente, as evidências científicas disponíveis e, principalmente, a necessidade daquele produto para cada indivíduo", explica Bruna.
O que há dentro do sachê?O Coleology Cutting Jelly é apresentado pela Foodology como um produto voltado ao cuidado com o peso.
A fórmula reúne ingredientes como Garcinia cambogia, fibras, chia, concentrado de romã, colágeno de peixe, proteína do leite e adoçantes.
A composição também ajuda a desfazer uma possível impressão criada nas redes: apesar de conter proteína do leite, a geleca não deve ser confundida com um suplemento proteico.
A quantidade presente na porção é pequena e não faz do produto uma fonte relevante desse nutriente.
"Precisamos tomar cuidado com a percepção criada pelas redes sociais.
Um alimento ou suplemento pode conter determinado ingrediente e isso não significa que ele tenha uma quantidade nutricionalmente relevante daquele nutriente.
Não podemos olhar apenas para a embalagem ou para a promessa de marketing", diz a médica.
Quando celebridade vira referência de saúde
Kylie Jenner não ocupa o lugar de uma profissional de saúde ao mostrar o que consome.
Ainda assim, a força de sua imagem pode ser suficiente para transformar um produto pouco conhecido em objeto de desejo e esse é um fenômeno que vai muito além da geleca.
A diferença, hoje, está na velocidade.
Um produto aparece em um vídeo publicado por uma celebridade e, em questão de horas, pode despertar o interesse de consumidores em diferentes países.
A experiência individual de uma pessoa conhecida passa a ser interpretada, muitas vezes, como uma espécie de recomendação.
"Existe uma diferença enorme entre compartilhar uma experiência pessoal e fazer uma recomendação para milhões de pessoas.
Cada organismo tem necessidades diferentes e pode reagir de maneira diferente aos ingredientes de um suplemento.
Não devemos reproduzir automaticamente aquilo que uma celebridade consome", alerta Bruna.
Natural não é sinônimo de seguro
Outro ponto que merece atenção é a ideia de que um produto natural ou classificado como funcional seria necessariamente inofensivo.
A origem de um ingrediente não determina, sozinha, seus efeitos no organismo.
A fórmula reúne diferentes componentes, entre eles fibras e adoçantes, que podem provocar desconforto gastrointestinal em algumas pessoas, especialmente em determinadas quantidades ou em indivíduos mais sensíveis.
Além disso, ingredientes presentes em suplementos podem não ser adequados para todos.
"Até mesmo ingredientes considerados naturais podem causar efeitos adversos ou não ser indicados para determinadas pessoas.
É preciso avaliar histórico de saúde, medicamentos utilizados, alergias, intolerâncias e o restante da alimentação antes de incluir um suplemento na rotina", alerta a médica.
A nova obsessão por controlar a fome
Mais do que a geleca em si, o que chama a atenção é o comportamento que ela representa.
A cultura do emagrecimento passou a incorporar uma série de produtos que prometem facilitar o controle da fome, acelerar o metabolismo ou tornar mais simples a adesão a uma determinada rotina alimentar.
A lógica do “produto da vez” também pode transformar o cuidado com a alimentação em uma sucessão de soluções rápidas.
Para Bruna, é justamente aí que mora o risco de perder de vista a individualidade de cada pessoa.
"A busca por praticidade é legítima, mas precisamos tomar cuidado para não transformar o emagrecimento em uma sequência de produtos.
O objetivo não deve ser encontrar um sachê que faça o trabalho por nós, mas construir uma estratégia alimentar que seja adequada, saudável e sustentável", conclui.
A 'geleca' de Kylie Jenner viralizou. Mas ela é mesmo inofensiva?
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