A força dos nanonegócios femininos nas periferias

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Fonte da notícia: Folha de Pernambuco Folha de Pernambuco

Nos bairros das periferias, uma parcela importante da economia se dá longe das grandes empresas e dos centros comerciais. É nesse cenário que se insere o nanoempreendedorismo, formado por atividades econômicas de pequena escala, geralmente conduzidas por uma pessoa ou poucos trabalhadores e com baixo faturamento.

Em muitos casos, essas iniciativas são lideradas por mulheres, que atuam em salões de beleza, cozinhas que produzem alimentos para venda, costura, manicure, produção de doces e prestação de serviços, transformando habilidades em fonte de renda e contribuindo para o orçamento das famílias e a movimentação econômica das comunidades.

Para muitas mulheres, empreender não começou como um projeto de expansão profissional. Foi uma alternativa diante do desemprego, da necessidade de complementar a renda ou da dificuldade de conciliar o trabalho com os cuidados da família.

No Nordeste, 73% das mulheres ouvidas em uma pesquisa sobre nanoempreendedorismo afirmaram ter começado a empreender por necessidade. Em 52% dos casos, o próprio negócio se tornou a principal fonte de sustento.

Segundo o levantamento, 83% das nanoempreendedoras nordestinas têm faturamento de até R$ 1 mil por mês. Mesmo com valores baixos, a renda obtida com essas atividades pode representar uma parcela importante do orçamento familiar e garantir às mulheres maior autonomia para tomar decisões financeiras.

Para o economista Sandro Prado, os dados revelam uma autonomia econômica que ainda é parcial e vulnerável. “O negócio pode ampliar a autonomia individual e, ao mesmo tempo, reproduzir a precariedade econômica”, avalia.

Para o economista, o fato de 52% das nanoempreendedoras nordestinas terem o próprio negócio como principal ou única fonte de renda da família mostra que não se trata apenas de uma atividade complementar, mas, em muitos casos, de uma estratégia de sobrevivência familiar. O economista Sandro Prado analisa os desafios financeiros e o papel dos nanonegócios na economia das periferias.

Foto: Divulgação Pesquisa

O cenário foi identificado em uma pesquisa sobre o perfil sociodemográfico e os desafios da economia do cuidado realizada com mulheres que participaram de programas de empreendedorismo do Instituto Consulado da Mulher, da Engie e da Bell.Labs. A etapa quantitativa ouviu 371 mulheres de todo o Brasil, enquanto a fase qualitativa reuniu 120 participantes em grupos focais.

No Nordeste, além das 73% que afirmaram ter começado a empreender por necessidade, 39% das entrevistadas vivem em famílias com renda de até três salários mínimos. O levantamento também mostra que 47% possuem negócios formalizados, enquanto outros 47% são informais.

Há ainda 6% que afirmam estar formalizadas, mas ter pendências. “A criação do negócio não derivou de um plano estruturado para explorar uma lacuna de mercado, mas sim de uma resposta imediata a uma crise financeira ou de tempo”, expôs a diretora-executiva do Instituto Consulado da Mulher, Adriana Carvalho.

Adriana Carvalho, diretora-executiva do Instituto Consulado da Mulher, destaca os desafios do empreendedorismo feminino.  Foto: Divulgação. O baixo faturamento também aparece como um dos principais desafios.

Além das 83% que faturam até R$ 1 mil por mês, 45% das entrevistadas nordestinas registram faturamento entre R$ 1 mil e R$ 3 mil. Para Sandro Prado, a dimensão econômica desses negócios não pode ser medida apenas pelo faturamento individual.

O economista destaca que os nanoempreendimentos também funcionam como unidades de geração e circulação de renda nos territórios. “Quase todo o dinheiro é gasto localmente com alimentação, transporte, serviços, educação, fornecedores, comércio de bairro e outras necessidades do dia a dia.

Dessa forma, mesmo negócios que parecem muito pequenos ajudam a manter a renda circulando dentro das próprias comunidades”, explica. Ao mesmo tempo, Sandro avalia que o modelo pode exercer dois papéis: funcionar como uma possibilidade de mobilidade econômica e, simultaneamente, como alternativa diante da falta de emprego e renda.

A diferença, segundo ele, está na motivação que leva à abertura do negócio. Os dados também mostram que a necessidade de empreender não está necessariamente relacionada à baixa escolaridade.

No Nordeste, 42% das nanoempreendedoras possuem ensino superior completo ou pós-graduação. Para o economista, isso evidencia a existência de outras barreiras, como o acesso ao mercado de trabalho, à renda, ao crédito e às redes de apoio, além das dificuldades para conciliar trabalho e cuidado.

Fonte de renda  A história de Jane Ribeiro, dona de um salão de beleza no bairro do Cordeiro, no Recife, ajuda a mostrar como esses pequenos negócios podem ultrapassar a ideia de renda complementar e assumir um papel central dentro de uma família.

“Desde o início de 2020, nosso negócio se tornou a principal fonte de renda da nossa família, impactando nas decisões do planejamento financeiro da família. O salão veio como um divisor de águas para as nossas vidas”, frisou Jane Ribeiro.

Jane Ribeiro, dona de um salão de beleza no Cordeiro, no Recife, conta como o negócio se tornou a principal fonte de renda da família. Foto: Divulgação.

Para Jane, o trabalho por conta própria também trouxe autonomia para organizar a própria rotina. “Com certeza, o empreendedorismo me trouxe autonomia financeira, independência financeira e liberdade com o tempo, porém ainda tenho um pouco de dificuldade em termos de férias.

Ainda é um desafio conciliar o trabalho com os cuidados com a família. É necessário um planejamento junto com os membros da família para uma divisão das tarefas para não sobrecarregar.”

Ao mesmo tempo, a possibilidade de organizar os horários de atendimento permite que ela tenha uma flexibilidade que antes não existia quando trabalhava com vínculo formal. Internet

Para negócios que funcionam com pouca estrutura, a internet também se tornou uma ferramenta importante para conquistar e manter clientes. O WhatsApp assumiu um papel semelhante ao que o telefone tinha para os pequenos negócios décadas atrás.

Segundo a analista de atendimento, gestora do Plural Comunidades e responsável pelas ações do Sebrae Delas na Região Metropolitana do Recife, Anna Gordiano. O aplicativo funciona principalmente como um canal de relacionamento e contato direto com o consumidor.

“É uma oportunidade de você trazer novos clientes para o teu negócio. O celular hoje é de extrema importância ao uso porque o contato com o cliente, a maioria dos negócios fazem contato pelo WhatsApp.

As redes sociais eu entendo que são uma vitrine e um lugar também para captação de novos clientes.” De acordo com levantamentos citados pelo Sebrae, 70% dos pequenos negócios utilizam ferramentas digitais e 40% do faturamento é representado por contatos realizados por esses canais.

Outro levantamento aponta que 56% das vendas de micro e pequenas empresas acontecem pelo WhatsApp, enquanto 43% ocorrem pelo Instagram. Para Anna, os números mostram que ficar fora desses canais pode representar a perda de oportunidades de mercado.

Desafio A dificuldade de separar as contas pessoais das empresariais é outro obstáculo.

Como o dinheiro obtido com o negócio é utilizado, muitas vezes, para pagar despesas da própria casa, torna-se mais difícil identificar quanto efetivamente representa lucro e quanto corresponde ao faturamento da atividade. Para Sandro Prado, quando o dinheiro do negócio e o dinheiro da família entram no mesmo caixa, a empreendedora perde a capacidade de identificar quanto o empreendimento realmente fatura, quanto custa sua operação e se há lucro.

Segundo o economista, a informalidade também não deve ser interpretada apenas como resultado de uma deficiência de gestão. Em muitos casos, ela está relacionada à própria escala econômica do empreendimento.

Com margens pequenas, custos elevados e exigências associadas à formalização, o processo pode ser percebido como mais um peso financeiro. Para transformar esses negócios em fontes de renda mais estáveis, Sandro defende um conjunto de medidas que envolva acesso a crédito com juros baixos, orientação financeira, capacitação gerencial e formalização como estratégia de acesso a novos mercados.

Ele também aponta a necessidade de ampliar a inclusão tecnológica e digital e criar estruturas de cuidado, como creches, escolas em período integral e redes de apoio. “É necessário aumentar a produtividade, a renda e a capacidade de crescimento desses negócios.

Com isso, podem ser criadas condições para que o empreendimento deixe de ser apenas uma estratégia de sobrevivência e se transforme em uma fonte sustentável de renda e autonomia para as mulheres.”

Publicação Original Folha de Pernambuco folhape.com.br
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