Alguém poderia fazer pela família Bolsonaro o que o ativista políticoe escritor gaúcho Cláudio Antônio Weyne Gutiérrez fez por partedas memórias da luta clandestina contra a ditadura. Alguém dedentro do golpismo precisa contar o que foi a estrutura montada emtorno dos Bolsonaros, mas com as liberdades do humor, doescracho e do folclore político.
Que se inspire no relato de Gutiérrez, autor de ‘A GuerrilhaBrancaleone’, publicado no fim dos anos 90 e reeditado pela Sulinaem 2022. O livro conta as aventuras de um grupo de estudantesque se juntam nos anos 60 e 70, sem vínculos com as grandesorganizações da época, para peitar a ditadura com o queconsideravam ser ações de guerrilha.
Há relatos de bravura e de perdas trágicas, como odesaparecimento do estudante Luiz Eurico Tejera Lisbôa,assassinado pelos militares em 1972. Mas o que prevalece é ohumor e as histórias dos tropeços dos ‘guerrilheiros’, abordadascom certa zombaria.
O que Gutiérrez faz é contar, sob o ponto de vista de homens queficaram maduros, o que aqueles guris e gurias faziam comobrancaleones. O cinema, a literatura, o teatro e todas as artes estãorepletas desse tipo de relato.
É o que falta ao bolsonarismo. A folclorização do fascismo é o quepoderá sobrar do núcleo que reuniu gente de todo tipo e entra agoraem processo de degradação.
Eduardo e Flávio são hoje figurasmuito mais próximas da comédia do que do drama. Eduardo pede que fuzileiros navais americanos invadam o Brasil egrita pela internet para que os povos do mundo se levantem contraa derrota do irmão.
Com Paris em chamas, Eduardo quer que oseuropeus olhem para o Brasil. Flávio foge e tem, como primeira grande ideia, produzir ummanifesto com a ajuda do ChatGPT.
Declara-se presidente dosEstados Unidos do Brazil com ‘z’, com uma designação para o paíse um brasão que nem a ditadura queria mais. Na declaração mais recente, Flávio disse que voltará a disputaruma eleição para presidente antes de 2030, porque Lula irá cairlogo.
O pai dele, desde muito antes de tentar estourar umatornozeleira, é uma figura folclórica. Mas as organizações de mídia continuam tratando todos eles comoprotagonistas da política brasileira, sempre com a tentativa de criarequivalências entre a família e Lula, ou entre a família e quaisqueroutros democratas.
Folha, Globo e Estadão se esforçaram para que a família Bolsonarofosse vista como uma estrutura política ‘normal’. O pai e os filhos,com participação coadjuvante de Michelle nessa área do mundoparalelo da extrema direita, vieram até aqui porque os jornalões, ocentrão, a Faria Lima, as elites e a OAB os acolheram comocapazes de derrotar Lula.
Todos conhecem os currículos do pai e dos filhos e dos líderes queos cercam. São conhecidas suas crueldades e as atitudes fascistas
e até neonazistas de muitos deles, alguns já condenados comosupremacistas. Mas falta enxergá-los como figuras grotescas incapazes desustentar os personagens que tentaram representar, comoaberrações do teatro do extremismo.
Os Bolsonaros são figuras nabusca desesperada pela força literária e artística dos grandesbandidos da política. Mas o que sobra deles hoje, por rejeição da própria direita, é afolclorização das suas falas e atitudes.
Os Bolsonaros perderamduas eleições e perderam um golpe. São personagens ridículos queproduzem um vexame por dia.
Os guerrilheiros brancaleones do livro de Gutiérrez foram sendoconduzidos à certeza de que não tomariam o poder. Mas osBolsonaros continuam interpretando seus papéis, com a ajuda deTrump.
Alguém de dentro da extrema direita, e pode ser um dissidentecriativo, precisa contar a história de uma família violenta, cruel,mentirosa e trapalhona. Os Bolsonaros tropeçam nos cadarços atéquando estão descalços.
Brasil 247