Quando Ronaldo Caiado foi escolhido pelo PSD para disputar a Presidência da República, aliados calcularam que o governador de Goiás precisaria de cerca de R$ 100 milhões para fazer uma campanha com musculatura. O valor seria próximo do teto de gastos para o primeiro turno estabelecido pela Justiça Eleitoral (R$ 88,6 milhões) e representaria quase um quarto dos R$ 421 milhões que o partido recebeu do Fundo Eleitoral este ano. O problema é que, além da campanha presidencial, a verba precisa ser distribuída entre candidatos aos governos estaduais, ao Senado, à Câmara dos Deputados e às assembleias legislativas. Esse calculo tem preocupado membros do partido. Nos últimos tempos, passou a ser discutida internamente a possibilidade de Caiado receber R$ 60 milhões no primeiro turno, conforme publicado pela CNN. Lideranças do partido negam que já haja um valor estipulado para a candidatura presidencial e a indefinição alimenta uma preocupação entre candidatos e dirigentes: a de que o PSD economize na campanha presidencial e nos repasses aos postulantes à Câmara e às assembleias estaduais para concentrar recursos nas disputas consideradas prioritárias pela direção nacional: governos estaduais e Senado. Este ano, o PSD tem 13 candidatos próprios aos governos estaduais, 15 ao Senado, 596 a deputado estadual e 437 a deputado federal, além de participar de alianças e chapas em diferentes estados. A estratégia eleitoral do partido depende da definição de quanto será destinado a cada frente. A discussão sobre como usar o Fundo Eleitoral não começou agora. Ela esteve presente desde a escolha de Caiado como candidato à Presidência da República, quando o PSD abandonou a ideia de lançar Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, que havia acabado de ingressar na legenda após deixar o PSDB. Uma das justificativas para a escolha de Caiado era justamente a possibilidade de depender menos do Fundo Eleitoral. Além de ter patrimônio próprio (R$ 52,56 milhões em bens declarados ao Superior Tribunal Eleitoral), o ex-governador de Goiás era visto como alguém capaz de atrair recursos privados, apoio de empresários e do mercado financeiro. A avaliação de aliados era que uma campanha presidencial mais barata permitiria ao partido preservar dinheiro para candidaturas consideradas mais competitivas nos estados. Como mostrou O GLOBO, Caiado deverá passar boa parte da campanha no apartamento onde moram suas filhas, na Zona Sul de São Paulo. A escolha tem uma razão logística — o imóvel fica próximo ao Aeroporto de Congonhas, facilitando os deslocamentos do candidato —, mas também o aproxima do mercado financeiro e do empresariado paulista. Para a disputa presidencial, o limite de gastos no primeiro turno de 2026 é de R$ 88,6 milhões. Caso haja segundo turno, o candidato poderá acrescentar R$ 44,3 milhões ao orçamento e gastar até R$ 132,9 milhões. Até agora, a campanha do candidato recebeu R$ 6,6 milhões e já declarou R$ 20,94 milhões em despesas. Do total recebido, R$ 4,11 milhões vieram da direção nacional do PSD e R$ 2,525 milhões de pessoas físicas. Entre os maiores doadores está o empresário Carlos Eduardo Ferraz de Mattos Barroso, que repassou R$ 2,3 milhões.
Tomando 'um cano desgraçado' Nos bastidores da legenda, candidatos a deputado se queixam e temem receber menos recursos do que previam caso a direção nacional concentre uma parcela significativa do Fundo Eleitoral nas candidaturas majoritárias. Reservadamente, uma das principais lideranças do PSD disse ao GLOBO que os candidatos a deputado “estão tomando um cano desgraçado” do partido. A direção da sigla, no entanto, nega a hipótese de deixar candidatos sem recursos. Ao GLOBO, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, afirmou que nunca houve debate sobre um suposto limite de R$ 60 milhões para a candidatura de Caiado. — Nunca foram discutidos esses números. A única decisão da direção do PSD foi fazer um esforço para proporcionar uma campanha sóbria e eficiente. Felizmente, estamos conseguindo atingir nosso objetivo — disse o candidato a vice na chapa do goiano, sem informar quanto deverá ser destinado à candidatura presidencial. O deputado federal Antonio Brito, responsável pela distribuição dos recursos do partido aos candidatos à Câmara Federal, também nega a possibilidade de “calote”. De acordo com o coordenador-geral da campanha de Caiado, Adriano da Rocha Lima, a definição dos valores é tratada diretamente pela direção nacional do PSD. Ele afirma não participado das discussões sobre o montante a ser destinado à candidatura presidencial. Nenhum dos entrevistados arrisca cravar valores, mas todos concordam que cabe ao presidente nacional do PSD — Kassab — definir como será repartido o Fundo Eleitoral e quais candidaturas serão priorizadas. A expectativa entre integrantes do partido é que os valores sejam decididos nas próximas semanas, à medida que a organização das campanhas avançar. A escolha de Kassab deverá ser entre espalhar os recursos para atender ao maior número possível de candidatos ou concentrá-los onde o partido acredita ter maior chance de vitória.
O Globo