Uri Levine, cofundador do Waze, ama o Brasil.
O empreendedor israelense viu o aplicativo de navegação que criou ganhar espaço no país antes de ser comprado pelo Google, em 2013, por cerca de US$ 1,1 bilhão.
Também acompanhou de perto a trajetória da Moovit, da qual foi investidor e primeiro membro do conselho, até a aquisição pela Intel, em 2020, por aproximadamente US$ 1 bilhão.
Agora, Levine decidiu trazer ao Brasil outra parte dessa experiência.
Nesta quinta-feira, 28 de agosto, ele lança no país a Uri Levine Startup Academy, plataforma de educação para empreendedores que pretende ensinar, na prática, como construir uma startup – da identificação de um problema até crescimento, escala, captação de recursos e eventual saída.
É uma espécie de "escola de unicórnios", construída a partir dos acertos e, principalmente, dos erros acumulados por Levine ao longo de décadas empreendendo.
"Eu diria que há algumas razões[para escolher o Brasil: o sucesso do Waze e da Moovit e o interesse do público brasileiro no meu livro, Apaixone-se pelo problema, não pela solução (Citadel Grupo Editorial)", afirmou Levine, em entrevista exclusiva à Época NEGÓCIOS.
"Primeiro, quero ajudar o ecossistema brasileiro a se tornar mais bem-sucedido.
E, segundo, acredito que a Academy também será muito importante, porque o mercado é grande e existe uma necessidade."
Para Levine, essa necessidade pode ser resumida em uma palavra: experiência.
"Empreendedores de segunda viagem têm uma probabilidade muito maior de darem certo.
Quando é experiência prática, não estamos mais falando de teoria.
Estamos falando sobre o que você faz quando enfrenta esses desafios.
Não é sobre probabilidades.
É sobre decisões."
Criada por Levine em parceria com o empreendedor e investidor-anjo Guy Even Ezra, a Academy estreia com 11 módulos e mais de 70 videoaulas.
A plataforma será totalmente bilíngue, com conteúdo em português e inglês, e funcionará por meio de uma assinatura anual, nos valores de US$ 997 à vista ou US$ 1.188 parcelados em quatro pagamentos trimestrais de US$ 297.
O percurso acompanha as diferentes etapas de uma startup: começa na ideação e na validação do problema, passa por product-market fit, formação de equipe, estratégia de entrada no mercado, crescimento e captação de recursos e chega às possibilidades de saída.
Os assinantes poderão assistir às aulas no próprio ritmo e retornar aos conteúdos conforme os desafios surgirem dentro de suas empresas.
A plataforma também terá sessões online ao vivo com Levine e outros empreendedores que contribuírem com o conteúdo.
A ideia, segundo Guy, é permitir que os participantes levem dúvidas concretas de seus negócios e tenham contato direto com quem já enfrentou problemas semelhantes.
"Como alguém que fundou startups e atuou como CEO, sei em primeira mão o quanto a jornada de um fundador pode ser difícil e solitária", afirma Guy.
"Criamos um ambiente para enfrentar justamente esses desafios, combinando orientações práticas, testadas no mundo real, de fundadores que realmente passaram por essas situações, com um espaço para compartilhar dificuldades reais e receber conselhos sinceros."
A ideia da Academy nasceu também de uma frustração de Levine com uma experiência anterior: escrever livros não era suficiente para transmitir tudo aquilo que gostaria de ensinar.
"Depois do Waze, da Moovit e de outras histórias de startups, não há dúvida de que sou um empreendedor.
Mas também sou professor", diz.
"Escrever o livro foi uma forma de cumprir meu destino como professor.
Mas percebi que ele não era suficiente.
As pessoas não estavam absorvendo o suficiente dos principais insights", afirma.
"Quando você lê um livro, vai tirar dele aquilo que quiser.
Mas eu quero que você absorva algo muito específico.
Quando ensino por vídeo, meu foco é destacar aquilo que considero mais importante."
O que Uri Levine enxerga no Brasil
A aposta de Levine no país também vem da transformação que ele diz ter acompanhado pessoalmente desde a chegada do Waze ao mercado brasileiro.
"Quando comparo o ecossistema de hoje com o momento em que lancei o Waze aqui, em 2011, naquela época não havia sequer um unicórnio no Brasil", diz.
Na avaliação de Levine, o ambiente mudou radicalmente desde então.
Ele cita empresas como Nubank, Stone, C6 Bank e 99 como sinais do amadurecimento do ecossistema e destaca uma mudança menos quantificável, mas que considera fundamental: o medo de fracassar diminuiu.
"Fizemos um progresso bastante significativo.
Há menos medo do fracasso e, portanto, há mais empreendedores."
Ainda assim, ele vê gargalos.
Um deles é a captação internacional.
"Continua existindo complexidade para levantar capital com investidores estrangeiros.
Há muita complexidade, mas existem maneiras de superar isso", afirma.
"É possível.
Não é simples, mas é possível.
E pessoas experientes vão dizer como fazer."
Essa dificuldade terá espaço especial na Academy.
Levine costuma comparar a construção de uma startup a uma montanha-russa.
Para fundadores buscando investimento pela primeira vez, acrescenta um agravante.
"Construir uma startup é uma jornada de montanha-russa, com altos e baixos.
Levantar capital, se é a sua primeira vez, é uma jornada de montanha-russa no escuro.
Você nem sabe o que está por vir." A plataforma terá dois módulos relacionados à captação.
Mas o plano vai além das aulas.
A partir de 2027, Levine e Guy pretendem abrir a comunidade da Academy também para investidores.
Hoje, explica o fundador, empreendedores precisam perseguir investidores e apresentar seus pitches repetidamente.
A intenção é inverter parte dessa dinâmica, criando um espaço em que investidores também possam procurar empresas.
Isso não significa, ao menos por enquanto, que o próprio fundador do Waze vá investir nas empresas que encontrar por ali.
Uma operação brasileira pode vir depois
Por enquanto, a Academy não terá uma estrutura física no país.
A operação começa de maneira remota, enquanto Levine e Guy procuram parceiros brasileiros que possam ajudar a plataforma a se conectar ao ecossistema local.
A ambição inicial também é mensurável.
Levine espera chegar a 10 mil assinantes ou participantes em dois anos.
Mas diz que não considera suficiente vender assinaturas.
"Se as pessoas me procurarem para dizer: 'você me ajudou a me tornar bem-sucedido', essa será a recompensa emocional de construir algo que acreditamos que gera valor", afirma.
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