‘A cultura do bate-bolas é a cara do carioca, não é bloco pra turista ver’, diz professor Marcus Faustini
“Chegará o dia em que bate-bolas, com suas batidas de bexigas, e os clóvis, com suas sombrinhas e adereços, brilharão no olimpo das grandes manifestações cariocas”, previu o professor teatral Marcus Faustini, em sua coluna no GLOBO de 2018. Passados alguns anos e a manifestação do carnaval no subúrbio do Rio de Janeiro estourou a bolha dos dias de folia e se faz presente no cotidiano cultural de toda a cidade, assim como também fora do país.
De 2025 para cá, eles foram vistos nas ladeiras de Olinda; numa festa em homenagem ao autismo em Itaguaí; nas saídas fora de época na Intendente Magalhães além de uma série de eventos cercados de bandeiras de inclusão e conscientização. Se por um lado são atrelados à criminalidade, pelo outro, enfim, vêm ganhando o reconhecimento que merecem.
A máscara é Clóvis
Gabriel Ribeiro
As saídas da turmas (como é chamado) começaram na quinta-feira (12) a partir das 18h, em Marechal Hermes (Rua Acapuco) e, nesta sexta-feira (13), sai uma das mais aclamadas, Turma da Fascinação, de Oswaldo Cruz, às 22h.
“Teve queima de fogo, oração. É um trabalho de um ano inteiro, tem que tudo ter que dar certo. Fantasia de adulto, fantasia de criança, fantasia feminina. Aí na hora que abre o portão, é aquele emoção. Tocando o rap, tem gente que chora, tem gente que não sabe nem o que fazer”, emociona-se Anderson Buda, da Fascinação.
De olho no futuro, ao longo od ano, as turmas de bate-bola passaram a participar de festivais culturais ou encontros específicos fora da data oficial, geralmente organizados pela própria comunidade ou com apoio de órgãos públicos, como a Prefeitura do Rio. Um exemplo foi o 3º Encontro de Turmas de Bate-bola no Parque Oeste, também no ano passado.
Cores, formas, um ano de preparo
Gabriel Ribeiro
Pesquisadores, fotógrafos, documentaristas e coletivos culturais passaram a olhar para os bate-bolas com a atenção que merecem. Exposições, livros e filmes ajudam a deslocar o olhar: do medo para a estética, do preconceito para a história, da repressão para a escuta.
“Em 2006 estreamos nos cinemas o documentário ‘Carnaval, Bexiga, Funk e Sombrinha. Foi o primeiro filme que deu voz às turmas e mostrou a rede comunitária, artística e econômica dessa manifestação cultural. Vinte anos depois, pesquisas mostram que existem mais de 400 turmas que todo ano vivem o carnaval no subúrbio. A cultura do bate-bolas é a cara do carioca, não é bloco pra turista ver”, comenta Marcus Faustini, autor do filme sobre o universo dos grupos de "Clóvis", ou bate-bolas, mostrando como eles perpetuam essa tradição do carnaval de rua.
Museus e centros culturais, como o CRAB Sebrae, decidiram incorporar a cultura realizando exposições temáticas sobre o carnaval e a cultura dos bate-bolas, exibindo as fantasias e contando a história dessa tradição. Uma das mais relevantes aconteceu no Sesc Madureira, uma mostra, com curadoria de Isabel Portella, que apresentou o olhar artístico e documental do fotógrafo Andre Arruda sobre esse movimento cultural que há quase 100 anos marca o carnaval das periferias do Rio de Janeiro.
Os temas são diversos
Gabriel Ribeiro
“A exposição foi um mega sucesso, reunindo 17 fotografias em grande formato, além de fantasias, máscaras e bandeiras das “turmas” – como são chamados os grupos de bate-bolas. O público também conferiu dois curtas documentais: ‘Jairinho Madruga’, sobre um dos principais artesãos de máscaras do movimento, e ‘Bate-bola é Arte?’, que discute a relevância sociocultural dessa tradição”, detalhou Isabel.
A fama se espalhou, e lá estavam os bate-bolas numa manhã de sábado se apresentando no pilotis do Museu de Arte Moderna, Flamengo, onde famílias da zona sul tiveram a oportunidade de conhecer esse que depois dos desfiles das Escolas de Samba é a segunda economia do carnaval carioca.
Tamanha exposição no MAM trouxe frutos para uma maior conexão dos bate-bolas com a cidade, com oficinas de montagem de máscaras, criação de desenho e conversas com aderecistas.
“O pessoal ali não conhecia muito essa cultura do bate-bola, então eles participaram fazendo, montando máscara desenhando, colorindo, pintando colando, isso foi maravilhoso muito enriquecedor pra gente e para eles", conta Anderson Buda.
De uma beleza a diversidade
Gabriel Ribeiro
Uma mega exposição perto de Madureira levou a participação de deles no Casa Bloco - um festival carnavalesco paralela - , como atração contratada. "Teve até um cachezinho, o que nos obrigou a virar MEI, para emitir nota fiscal. Foi a nossa profissionalização", diz um outro bate-bola.
Depois disso, a sorte estava lançada, e eles foram parar na Inglaterra, quando os britânicos aprenderam que nem tudo de carnaval no Brasil se resume a Sapucaí e abadá na Bahia.
O interesse em participar, claro, foi imediato. Em 2025 mais de 800 bate-bolas na pista, para este ano, a expectativa é de ao menos mil. Já na virada do ano, os bate-bolas viraram tema de uma mega exposição no Mercadão de Madureira, um dos maiores mercados populares do Brasil e Patrimônio Cultural Carioca de Natureza Imaterial, atrai visitantes, incluindo personalidades e celebridades (a "fama"), devido à sua autenticidade e diversidade cultural. Entenda por isso, programa para toda a família.
“Não podia ser um lugar mais icônico do que esse", diz um outro integrante.
Economia criativa, o caminho para a profissionalização
Anderson Buda
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Para o bate-bola Anderson Buda, a economia criativa é o caminho da evolução. “A gente usa a inteligência artificial para poder gerar renda, vendendo nossas roupas, nossos kits. Outras turmas também usam esse artifício.”
Dois momentos marcantes na Indústria Cultural. Um deles é a inserção dos bate-bola como personagens nas revistas em HQ da Turma da Mônica. Os bate-bola são pop.
“Essa mistura é uma combinação perfeita entre arte, cultura e imaginação", declarou Mauricio de Souza.
O outro foi a presença dos bate-bolas na novela "Volta Por Cima", da TV Globo. O protagonista Jão, vivido pelo ator Fabrício Boliveira, e o amigo Sidney, interpretado pelo ator Adanilo, participam do grupo de bate-bolas Dragão Suburbano.
É como na vida real, o universo das pessoas por trás desses grupos — geralmente compostos por homens — e toda a competição em torno dessa tradição.
Somente este ano, os bate-bolas são tema de três mostras. No Centro Carioca de Fotografia (Travessa do Comércio 11, Centro), “Nação bate-bola” apresenta fotografias de André Arruda, que documentou o costume do subúrbio carioca ao longo de dez anos, além de fantasias, máscaras e bandeirões. Com curadoria dos bate-bolas Leo Fuzil (turma Vintage), Rudah e Fillipy Moyses (turma Sucesso), a exposição “Clóvis — Perigoso e divertido” apresenta fotografias de onze artistas, máscaras e figurinos produzidos por 25 artesãos na Ocupação Iboru (Rua Sete de Setembro 43, Centro). O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular expõe fantasias, adereços e máscaras desses personagens, na mostra “Clóvis e os bate-bolas: nossa turma tá na rua!” (até 22 de fevereiro), feita por alunos de Museologia da Unirio.
Turnê em Paris
Todo cuidado com os detalhes
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Foi a partir de pessoas que conheceu no mundo do baile funk carioca que Vincent Rosenblatt foi apresentado aos bate-bolas, personagem tradicional e misterioso do carnaval fluminense, que representa toda uma parte pouco conhecida da cultura brasileira. Os homens fantasiados com extravagantes macacões e máscaras, que andam pelas ruas assustando os foliões, fazendo barulho ao bater as bolas no chão, viraram inspiração com fotos expostas em uma galeria de Paris.
A íntima relação com a Europa é defendida no ambiente acadêmico. Em sua pesquisa de mestrado, Aline Gualda Pereira identificou que a origem vem da simbiose de manifestações da Alemanha e da Península Ibérica com brasileiras, como a Folia de Reis. “No início as fantasias dos Pierrôs ou Clowns (palhaços em inglês) eram utilizadas por mulheres. Com sua maior popularização, passaram a se chamar Clóvis, em uma derivação da palavra gringa, e os homens assumiram o protagonismo da brincadeira.”
Um rito que faz barulho
As bate-boletes
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As pessoas abrem caminho, olhares de fascinação e os fogos de artifício. Os bate-bolas, também chamados de clóvis – uma evolução da palavra inglesa clown que significa palhaço –, passam o ano inteiro costurando sua própria fantasia, longe do Sambódromo e fora do sinal das transmissões oficiais de televisão.
Seus enredos, porém, há de um tudo, de princesas a super heróis e o cardápio dos personagens da Disney é enorme. O número de componentes varia de 15 a 200, somando 16 mil pessoas ao menos. Cada grupo reúne, em média, cem integrantes, somando quatro mil pessoas.
E não esquecemos, hoje em dia também tem as bate-boletes, as meninas que não usam bate-bola, mas fazem uma fantasia dentro da temática da turma.
Reconhecimento
Bate-boletes, no dia do certificado
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Em 2012, eles foram reconhecidos como Patrimônio Cultural Carioca e exaltados como importante expressão da tradição da cidade do Rio de Janeiro. Em 2022, a Secretaria Municipal de Cultura do Rio realizou a entrega de um certificado a cada um dos 400 grupos de Bate-Bola que se cadastraram na Prefeitura. Pela primeira vez, os grupos de bate-bola foram mapeados pelo poder público, por iniciativa do então secretário municipal de Cultura, Marcus Faustini que, durante uma palestra na Queen Mary University of London e 2022, abriu uma fala mostrando fotos de algumas turmas de bate-bola e anunciou que, a partir deste mapeamento, haveria políticas públicas para eles.
Como de praxe, na terça-feira de carnaval (17), acontece a apoteose desta manifestação, um grande encontro na Cinelândia. E, pelo visto, não acaba aí…
