A crise do Botafogo e a passagem do bicheiro Emil Pinheiro pelo clube

 

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Depois de um duradouro jejum de títulos, um investidor assumiu a gestão do Botafogo e injetou dinheiro no clube carioca, que contratou reforços de peso e voltou a ser um time competitivo no cenário nacional. Estádios ficaram cheios, troféus foram conquistados, e a torcida passou a andar por aí sorrindo de orelha a orelha. Parecia bom demais pra ser verdade. Pouco tempo depois, porém, o clube se viu de novo afogado em dívidas e, para piorar, perdeu o seu "salvador".

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Pode parecer, mas não estamos resumindo a passagem do empresário John Textor pelo alvinegro do Rio. O parágrafo acima descreve um filme parecido já vivido pelo clube em outra época e com outro pivô na trama. No fim dos anos 1980, o bicheiro Emil Pinheiro assumiu a gestão do Botafogo e, assim como o investidor americano, acabou com uma longa estiagem de títulos do time. Entretanto, pouco tempo depois, deixou o clube afogado em incerteza e dívidas.

Emil não era um contraventor poderoso como foi Castor de Andrade. Pertencia ao segundo escalão do jogo do bicho. Mas, depois que o "Doutor Castor" levou o decadente Bangu Atlético Clube à final do Campeonato Brasileiro, em 1985, Emil sonhou em fazer algo assim com seu time do coração. Quando ele entrou no Botafogo, em 1987, o clube carioca estava sem títulos desde 1968. Em 1989, as torcidas rivais, em coro, contavam até 21 e emendavam com um "parabéns pra você". Maldade pura.

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O bicheiro, dono de bancas de apontamento na Barra da Tijuca e arredores, começou a jogar dinheiro no clube. Popular entre os torcedores, ele tinha um estilo personalista parecido com o de Textor. Para liderar o elenco alvinegro, Emil trouxe o técnico Valdir Espinoza, que exibia no currículo uma Copa Libertadores recém-conquistada pelo Grêmio. Entre os reforços dentro de campo, estavam o zagueiro Mauro Galvão e o lateral-direito Josimar, atuantes na seleção brasileira desde a Copa de 1986.

Emil Pinheiro com Renato Gaúcho ao lado de um iate do contraventor

Julio Cesar Guimarães/Agência O GLOBO

O Botafogo começou a entregar o que a torcida tanto almejava. Depois de duas décadas sem título, em 1989, o time foi campeão estadual invicto, derrotando o Flamengo na final. Logo no ano seguinte, faturou o bicampeonato e, em 1992, foi vice-campeão brasileiro com Renato Gaúcho em campo.

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Mas, depois de perder a final de 1992 para o Flamengo, em dois jogos no Maracanã, Emil começou a tirar seu dinheiro do Botafogo. Cheio de dívidas e alegando pressão da família para deixar o futebol, ele passou a cortar gastos. Sob sua direção, o clube pagava todas as despesas dos jogadores. Aluguel, água, telefone, luz, tudo. Depois da derrota no Brasileiro, entretanto, essa torneira fechou. "O Botafogo está agonizando, perto da morte", disse ele. "Impossível continuar vestindo uma capa".

Mas o maior sofrimento para a torcida foi assistir aos craques partindo. Renato Gaúcho, Carlos Alberto Dias, Valdeir, Chicão... No lugar deles, chegou um elenco de 22 jogadores cujos salários, somados, não alcançava a metade do que Renato ganhava, segundo a edição do Jornal O GLOBO de 22 de agosto de 1992. Ou seja, um mês depois da final do Campeonato Brasileiro, o Botafogo estava de volta a uma dura realidade. Do escrete vice-campeão, só havia sobrado o apoiador Pingo.

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"Se o Botafogo tiver de viver à sombra do dinheiro da contravenção, melhor que morra", disse o grande jornalista Armando Nogueira. Mas a opinião do cronista não era um consenso entre os botafoguenses eméritos. "O Emil é a alma do Botafogo. Quando ele assumiu, o time estava sob a ameaça de cair para a segunda divisão. Ele reestruturou o clube, ganhou dois títulos estaduais e o vice-brasileiro. Se sair, não tenho dúvida, o Botafogo voltará a correr sério risco de rebaixamento", disse o ex-craque Didi.

Emir Pinheiro deixou a presidência do Botafogo ainda naquele ano. Mas o time não ficou muito tempo sem um título. Em 1995, com Carlos Augusto Montenegro na direção do clube, o alvinegro se sagrou campeão brasileiro após 27 anos sem o troféu. O próprio dirigente, em entrevistas posteriores, admitiu que não havia nenhum grande planejamento na época. Mas brilharam as estrelas do técnico Paulo Autuori e dos craques Donizete e Túlio Maravilha, artilheiro do torneio com 23 gols em 25 jogos.