A cerveja é rica em vitamina B6, revela estudo. Ela então pode ter benefícios para a saúde? Veja o que diz a especialista

 

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Segundo uma nova reportagem da BBC, a cerveja pode ter um "benefício surpreendente para a saúde". Essa deve ser uma notícia animadora para os apreciadores de cerveja em todo o mundo. Mas o que exatamente diz o novo estudo em que a reportagem da BBC se baseou? E será que ele resiste a uma análise mais rigorosa?

O estudo, publicado no Journal of Agricultural and Food Chemistry, teve como objetivo avaliar o teor de vitamina B6 em cervejas sem álcool e com teor alcoólico normal. A vitamina B6 é um nutriente essencial com funções importantes no organismo, mas existem problemas na forma como esses resultados são apresentados.

Os números são tecnicamente verdadeiros, mas enganosos dentro de um contexto mais amplo. Dizer que uma cerveja fornece 15% da sua necessidade diária de vitamina B6 soa impressionante, mas ignora o panorama alimentar mais abrangente.

A maioria das pessoas não apresenta deficiência de vitamina B6. E a mesma quantidade, ou até mais, pode ser facilmente obtida através de uma dieta saudável padrão. Diversos alimentos, como batatas, grão-de-bico, cereais fortificados, grãos, carnes e vegetais, fornecem vitamina B6 sem a necessidade de álcool.

O artigo também relaciona a vitamina B6 a importantes funções neurológicas, mas não apresenta evidências de que o consumo de cerveja melhore significativamente a saúde cerebral. Afirma corretamente que a vitamina B6 está envolvida na produção dos neurotransmissores serotonina e dopamina, e confirma que a cerveja contém quantidades mensuráveis ​​de B6. No entanto, a interpretação de que, portanto, a cerveja "estimula o cérebro" é problemática.

O estudo não avalia os efeitos na saúde cerebral de nenhum tipo (nem a cognição, o humor ou os efeitos neurológicos), portanto, tais conclusões não são sustentadas pelos dados. A ingestão de vitamina B6 proveniente da cerveja é modesta, e essa narrativa ignora os malefícios bem estabelecidos associados ao consumo de álcool.

A definição de porção também é preocupante. O estudo se refere a "uma porção" e, em alguns casos, a volumes de até um litro. Beber nessas quantidades regularmente entraria em conflito com as diretrizes do NHS (Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido) sobre o consumo de álcool. Uma porção típica de meio litro fornece cerca de 13 a 16% da necessidade diária de vitamina B6. Uma cerveja precisaria fornecer a quantidade de vitamina B6 equivalente a um dia inteiro em um copo padrão para se qualificar para uma alegação de saúde. Nenhuma das cervejas do estudo chegou perto disso.

O estudo também não enfatiza adequadamente os malefícios do álcool, incluindo os riscos para o fígado, o cérebro e o aumento da incidência de câncer. Reconhecendo esses danos, a Organização Mundial da Saúde afirma que não existe um nível seguro de consumo de álcool. Embora isso seja mencionado no artigo, destacar um pequeno teor de vitaminas sem ponderá-lo adequadamente em relação a esses riscos é enganoso.

Quando as marcas de bebidas se aproveitam de estudos como esse para fazer seus produtos parecerem benéficos à saúde, elas estão priorizando o marketing em detrimento da saúde pública. Na pior das hipóteses, estão incentivando as pessoas a beberem mais.

Uma história familiar: o mito do vinho tinto

Esta não é a primeira vez que narrativas sobre os benefícios do álcool para a saúde chegam à mídia. A ideia de que uma taça de vinho tinto por dia faz bem ao coração é um dos exemplos mais persistentes. Embora essa afirmação tenha algum fundamento científico, atualmente é alvo de intenso debate.

Essa crença remonta, em grande parte, ao chamado "paradoxo francês", cunhado após observações de que os franceses apresentavam taxas relativamente baixas de doenças cardíacas, apesar de dietas ricas em gordura saturada e consumo regular de álcool. O vinho tinto, em particular, tem sido apontado como benéfico para a saúde por conter compostos naturais chamados polifenóis – especialmente o resveratrol – que atuam como antioxidantes e ajudam a proteger as células do corpo.

Estudos posteriores, no entanto, levantaram sérias preocupações sobre essas afirmações. Os pesquisadores apontaram que outros fatores – como a dieta das pessoas, o nível de atividade física e o acesso a serviços de saúde – podem ter influenciado os resultados. Também houve uma revisão mais ampla dos efeitos do álcool, com evidências crescentes de que ele pode aumentar o risco de danos, especialmente de certos tipos de câncer.

Em conjunto, essas questões ajudam a explicar um padrão conhecido como "efeito do usuário saudável". À primeira vista, os dados observacionais sugerem que o consumo moderado de álcool pode ser protetor. Alguns estudos relatam taxas mais baixas de doenças cardíacas entre bebedores moderados em comparação com não bebedores. Mas os dados observacionais só podem mostrar correlações, não causa e efeito.

Na realidade, os consumidores moderados de vinho muitas vezes diferem dos não consumidores em aspectos importantes. Em média, eles são mais propensos a ter dietas mais saudáveis, serem mais fisicamente ativos, terem maior poder aquisitivo, mais amigos e consultarem o médico com mais frequência.

Cada um desses fatores, de forma independente, reduz o risco de doenças cardíacas e AVC. Quando não são devidamente considerados, o próprio álcool pode ser erroneamente considerado o fator protetor.

Ao se considerar o conjunto mais amplo de evidências, particularmente as pesquisas que relacionam o álcool ao câncer, doenças hepáticas e problemas de saúde mental, a maioria das revisões conclui que quaisquer benefícios potenciais são pequenos e provavelmente superados pelos riscos. As contribuições nutricionais da cerveja e do vinho existem, mas são mínimas e improváveis ​​de se traduzirem em melhorias significativas para a saúde.

Polifenóis, antioxidantes, vitaminas e minerais podem ser obtidos de forma mais segura e confiável a partir de frutas, vegetais, grãos integrais, leguminosas, azeite de oliva e outros alimentos integrais, sem os riscos associados ao álcool.

*Chloe Casey é Docente de Nutrição e Comportamento na Universidade de Bournemouth.

*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.