Miguel Sanches Neto Brasil, brasis
O Brasil sempre foi um país com temporalidades sobrepostas, por isso percorrer o espaço se fazia, e ainda se faz, uma viagem no tempo. Há locais – poucos, é verdade – em que persistem indígenas sem contato com a civilização, mantendo modos de vida iguais a eras primitivas.
A literatura de viagem, que definiu a formação da literatura brasileira, apresentou a nós mesmos e ao mundo essas descontinuidades cronológicas. Durante o movimento modernista (1922-1945), viajar a cavalo, de barco, de carro e de trem por regiões distantes dos centros urbanos foi uma maneira de afirmar essa diversidade existencial – entre o desejo de atualização do país em relação ao mundo industrial e a alegria de constatar in loco a história da humanidade – por meio de retratos do Brasil feitos de retalhos contrastantes do processo de evolução (ou involução) civilizatória.
Em seu “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” (1924), Oswald de Andrade defendia a urgência de “acertar o relógio império da nossa literatura”, colocando-se, assim, contra a paralisia na arte e atravessando poeticamente o tempo múltiplo do país e suas particularidades. Igualmente valorizando as camadas de tempo de nossa pátria, Mário de Andrade criou um personagem em que as eras se sucedem, como uma figura nascida de colagens históricas, em Macunaíma (1928).
A partir desses exemplos, estava aberta a possibilidade de uma literatura que desvenda brasis outros, na iminência do fim. Porque toda aproximação desses mundos congelados é uma forma de testemunhar um declínio irreversível.
A literatura regional brasileira, portanto, ganha uma dimensão moderna: ela faz experimentações com o material linguístico característico de vivências periféricas que, à primeira vista, podem parecer em profundo descompasso com o agora, mas na verdade guardam riquezas humanas não registradas.
O regionalismo, com esse espírito que poderíamos chamar de “desvendante”, ganha espaço em nossa literatura contemporânea, seja para restaurar sociedades extintas seja para fortalecer identidades invisíveis, manifestando-se em um contínuo que nunca esgota tudo que nos constitui como povo, como linguagem e como arte.
Um palmo ou dois acima do chão, de Edival Lourenço, é a afirmação da força desse regionalismo experimental, que já nos rendeu grandes livros. Nessa vertente, a linguagem tem uma denominação de origem.
Este é um livro do interior de Goiás, da Região Centro-Oeste do país. A ficção produzida nesse Estado, que já foi longínquo em relação ao centro de poder, tem no regionalismo de Hugo Carvalho Ramos a sua fundação, em Bernardo Élis a sua reinvenção e em José J.
Veiga a potencialização de uma magia ancestral, transformada em realismo maravilhoso. Três grandes escritores, que vão do registro de hábitos a usos modernos de todo um modo de ser goiano.
É nessas latitudes literárias que Edival Lourenço inscreve o seu poderoso romance de autoficção, sem receio de colocar-se na narrativa como oriundo de um mundo rural e selvagem que, com suas belezas e crueldades, se desfez no momento em que se desfazia a infância do autor. A volta à região, em Edival Lourenço, é uma busca para entender o Brasil e celebrar a linguagem popular como patrimônio literário inventivo.
As qualidades estéticas e estruturais do livro o colocam na grande tradição moderna da narrativa que une o misticismo, a poesia, a inventividade e a natureza humana e física de um espaço que ganha espessura no mapa-múndi do Brasil de tantos brasis. Aceleração histórica
O período do romance coincide com os anos iniciais da vida do autor, nascido em 1952, e tem como grande emblema civilizatório a presidência de Juscelino Kubitschek (1956-1961), com seu famoso lema de realizar, em uma gestão de cinco anos, uma modernização equivalente a cinquenta.
É um governo que quer acertar os ponteiros da civilização brasileira. Seu grande feito, descentralizar a República, coloca Goiás em uma situação contraditória: o interior do Brasil se faz capital.
As comunidades que viviam de acordo com hábitos antigos, por seu isolamento, passam a ter contiguidade com a maior proposta urbanista da modernidade. As formas artesanais de sobrevivência entram em choque com a chegada de arquitetos, engenheiros, empresas, novas instituições, máquinas, e trabalhadores que alteram a paisagem regional.
É, portanto, um período de risco para as comunidades tradicionais, e também de possibilidades para alterar situações de servidão pelo acesso a direitos antes não reconhecidos. Se na capital do Estado e na nova Capital Federal tudo se move em ritmo rápido, o local em que se passa a narrativa ancora-se no passado: rios e matas, fazendas originadas de apropriações indevidas, ricos em convivência contígua com os trabalhadores – em uma falsa intimidade que reencena relações escravagistas –, hábitos religiosos coloniais e o misticismo popular como sinônimo da vida espiritual.
É nesse ambiente que o menino Edival forma sua sensibilidade, inicialmente como filho único, criado por pais jovens e artistas (o pai é músico, caçador, puxador de terço e líder de Folias de Reis; já a mãe, esta é cantora em suas rotinas de esposa), em uma recuperação da raiz sertaneja da música goiana.
A categoria social da família é definida por sua condição de trabalhadores rurais sem terras, que vivem em uma fazenda quase “de favor”. São os “tolerados”, qualificação que os localiza um grau acima dos escravizados, mas ainda muito próximos da dependência total do patrão.
No romance, essa permanência de um regime extinto no século XIX se impõe pela figura do escravizado Homero, um faz-tudo do patrão, condenado a continuar assim mesmo depois da própria morte, pois seu “dono” quer que ele seja enterrado junto, ainda que esteja vivo, para poder servi-lo em outra vida.
O Brasil rural que se releva aqui é ainda muito próximo do escravocrata, apesar de haver um núcleo de resistência, o Quilombo dos Pitomba, com o qual a família e o próprio menino mantêm relações de afeto. Vale destacar que Edival a todo o momento é apresentado como descendente dos povos indígenas, criando um vínculo entre os sujeitos excluídos tanto do ponto de vista social como étnico.
Outro contraste na obra se dá entre o mundo idílico da natureza – ainda farto em peixes e caças, com paisagens naturais entusiasmantes – e as relações de trabalho extremamente hierarquizadas por meio da força do capataz – a expressão do próprio demônio na Terra. A solidariedade entre diversos grupos, principalmente nas festividades santas, não tem continuidade fora dessa falsa cordialidade do homem nacional.
Ao contrário, o contato superficialmente amigável entre as classes é uma forma de domínio, tal como Geraldo, pai de Edival, vai descobrir no final do romance. Nessas oposições, Geraldo se conecta com a natureza, assumindo não apenas sua sina de tolerado que trabalha a terra, mas também de membro de um povo integrado à vida selvagem.
Seus valores se manifestam por meio de atividades discordantes em relação ao trabalhador rural idealizado pelos patrões, como a pesca, a caça, a música, o terço com homilias e a Folia de Reis. É uma pessoa em dissonância com a nova escravidão dos agregados, fazendo-se ponto de resistência.
Por isso, ele é considerado um estorvo, ganhando fama de comunista. Não são seus discursos em favor da reforma agrária que o tornam malvisto, mas seu culto à natureza e à amizade.
Seu relacionamento social é marcado pela dádiva e pela prática do mutirão, tanto nos serviços quanto nas festas, seguindo um princípio dionisíaco que coloca em xeque a lógica dos proprietários, agora em um novo momento, atiçados pelas oportunidades de ampliar o lucro com a derrubada das matas em escala mecanizada.
O menino testemunha essas transformações e o fim de uma época marcada pela presença das árvores e de seus habitantes naturais, enquanto exercita sua nova identidade. Mesmo analfabeto, finge ler histórias de almanaque que lhe foram narradas, a fim de assumir um papel artístico – continuidade da tradição dos pais e também sintonia com o escravizado extemporâneo, que recebe o nome simbólico de Homero.
O menino Edival sonha ser um grande narrador, tal como o Homero goiano, mas com os recursos de quem pode deixar as histórias por escrito. Essa força testemunhal com fins narrativos é transportada para o ritmo do enredo.
Enquanto o tempo dos grandes centros, como o da nova capital, flui com pressa, o tempo da memória, espaço contíguo à infância em perigo (infância pessoal e infância da natureza), lento e minucioso, tem uma toada de carro de boi, com suas rodas cantantes. Uma das riquezas dessa era colonial é o som produzido pelos eixos dos carros de boi, em consonância musical com as modas de viola, as cantorias da Folia de Reis e o canto dos pássaros.
Essa musicalidade melancólica dá forma à obra, em suas miudezas de registros, na demora das ações e na luta de um modo de vida do sem tempo contra a velocidade imposta pelas máquinas. A narrativa, assim, escorre como um rio caudaloso na planície, de forma suave e compassada, mas volumosa.
A escolha desse ritmo é uma maneira de tentar interromper, lá no passado, o avanço das forças destrutivas e, aqui no presente, de restaurar pela lembrança espraiada aquele universo extinto. A andadura preguiçosa do relato fixa, pela estrutura das frases, uma outra era.
É por ela que entramos naquelas terras, naquelas matas, naquelas vidas, não na condição de quem apenas lê sobre tudo isso, mas de quem vive o outrora pela cadência do próprio texto. Há nessa estratégia de Edival Lourenço uma força linguística que, por si só, sustenta todo um universo que se desfez no ar para permanecer como linguagem recuperada.
Palavras vivas Se aquele tempo desapareceu, a linguagem que o edifica está viva na mente do escritor, que volta a ela, à sua matriz neológica – pois, por carecer de um vocabulário vasto, o sertanejo inventa as próprias palavras, assim como inventa instrumentos para o uso na ausência daqueles que já vêm prontos.
A multiplicação de palavras novas de forma natural, e não como constructo intelectual, dá naturalidade a esse recurso estético. Vamos saboreando as palavras e as expressões recuperadas ou reinventadas pelo autor como quem come uma fruta silvestre.
Em tal mecânica reside o caráter experimental deste romance de autoficção, que não se restringe a narrar uma vida, buscando obtê-la enquanto linguagem. Não lemos o autor nesta obra, e sim compartilhamos com ele um código que é maior do que o indivíduo, em uma verdadeira viagem pelas palavras.
Esse valor literário do livro une Edival aos grandes inventores da ficção moderna. Para além dessa gramática própria, existe o projeto de pronunciar os nomes das coisas destruídas, seja uma árvore, um pássaro ou um instrumento, com o objetivo de restaurá-las.
Ao dizê-las, o escritor memorioso devolve ao mundo tudo que presenciou e que se perdeu. Assim, as vidas que o romance contém são de natureza estética e não social, convocadas como matéria de ficção, centro desta narrativa sobre a música dos ritos coletivos e da própria escrita.
O menino em idade escolar e ainda analfabeto, que via as linhas de texto como carreiras de formigas (como seres vivos), fingindo-se leitor pela memória das histórias que lhe foram narradas, coloca toda a sua força nessa materialidade linguística, muito mais palpável para ele do que para quem sabia ler.
O que se eterniza Para fortalecer esse movimento do livro, que é sua cadência estilística proustiana, há um ser que se confunde com a própria essência temporal do menino: o jabuti que ele ganha do pai.
Símbolo da longevidade e da perseverança, em conexão com a terra e a natureza, o jabuti é a figura central da obra, incorporando um ritmo mais lento e consciente da vida. O menino anda sobre ele, erguendo-se alguns palmos acima do chão, ao mesmo tempo em que o toma como sinônimo da permanência da memória de tudo aquilo que, tendo passado, ainda não passou.
Se as coisas desaparecem em um sopro, o que foi vivido se fixa como uma realidade paralela recriada ficcionalmente. O jabuti Sansão suporta sobre seu casco o corpo do menino; mais do que isso, ele suporta o peso de todo um universo que se alonga com ele, bicho longevo, para chegar até nós, décadas depois do fim.
Esse era o amigo do menino Edival, que vivia no isolamento próprio dos agricultores que se estabelecem nas frentes agrícolas para abrir plantações e pastagens. Um amigo que carrega em si a ideia de eternidade.
Ao lado dele, outra figura central do livro é a menina por quem Edival se apaixona, integrante do Quilombo dos Pitomba, que recebe um nome que reforça o princípio constitutivo da ficção: Eterniza. Assim como o jabuti, ela é um ser de permanência em um mundo de súbitas mudanças que alteram a vida aparentemente estável dos personagens.
Se nada ficará como antes naquela região, influenciada pela construção de Brasília, alguns elementos atraem para eles a força da sobrevivência. Mística sertaneja
Na infância, tempo do romance, o mundo tem uma lógica à parte, ampliada por crenças, e a própria linguagem se desprende da semântica para ser algo independente, criando fascínio no narrador. Tudo que ele vive, das coisas mais simples às mais difíceis, está revestido de uma magia própria do culto ao sobrenatural.
Esse é o instrumento para explicar a realidade, seja uma doença ou mesmo um evento meteorológico, segundo os princípios caboclos. A religião entra no romance como um modo de interpretação do mundo, levando a um desfecho mágico que assusta e encanta o menino, futuro demiurgo da palavra.
Ele não pertence ao tempo presente, histórico, mas às crendices medievais, mantidas entre seus familiares, e tal conexão com o mistério configura sua sensibilidade. Tudo tem uma chave mágica, o que fortalece no menino o poder da ficção, a que ele se dedica ainda sem saber.
O narrador nasce, assim, de uma percepção aguçada do tempo, da natureza que está sendo atacada, dos mistérios inexplicáveis e do sentimento de conexão entre os excluídos. O Edival menino é o guardião de uma era, que continuou em efervescência no adulto, reorganizada agora em um formato ficcional.
Aquele menino incompleto, que não estudou e não entende o mundo dos patrões, busca uma formação para poder, a posteriori, constituir-se inteiro. Ele só se preenche depois de ter conquistado a linguagem.
Eis o movimento do romance: a construção de um ser que só pode existir no território flexível da ficção. É nesse espaço que se conclui a trajetória daquele menino à margem dos acontecimentos.
Ex-paraíso A fuga da terra provisória tem uma razão política, sendo também fruto de uma mudança do modelo rural.
Os conflitos entre o modo de vida de Geraldo e suas ideias sociais levam ao rompimento das relações com o dono da fazenda e com outros proprietários, restando a ele a partida, ainda que não seja bem acolhido entre os seus, em razão de sua natureza mais contemplativa. No nível dos episódios, isso o afasta daquela fronteira selvagem e o leva para as bordas da cidade de Iporá, onde poderá enfim estudar o filho que lia sem saber ler, em uma farsa amorosa em prol da arte.
No plano mais simbólico, é o fim das matas que os expulsa, pois já estava em curso a devastação que daria lugar a novos projetos de agricultura e pecuária. Partir é concluir uma experiência que não poderia permanecer a mesma, após aquela área, ainda distante dos meios modernos de exploração, começar a ser anexada aos valores capitalistas.
A viagem, em um carro de boi emprestado, é uma das cenas mais fortes do romance. A família, quase sem bens, que teve roubada a coisa mais importante para Geraldo – sua canoa –, é uma reunião de seres incompletos.
Nesse momento, o encontro com o jabuti que havia partido cifra o trabalho da memória, de retorno do que se perdera. Com os retirantes e seus trastes, um cavalo cego de um olho e com as patas traseiras mais baixas e um cachorro velho – que será atropelado por um automóvel –, o mundo se move.
Trata-se de uma cena que dialoga com o romance social de 1930, com os despossuídos em busca de uma vida melhor, embora as ações transcorram três décadas depois. Nesse Brasil desatualizado, os dramas se perpetuam em geografias profundas.
Com este romance da maturidade, Edival Lourenço une as duas pontas de sua vida, combinando a destreza própria de um escritor consolidado com o olhar de primeira vez do menino que viu um mundo desaparecer. Um palmo ou dois acima do chão se integra ao movimento de um novo regionalismo autoficcional, em que o remoto não é narrado por um viajante, mas apreendido enquanto linguagem e estrutura por alguém que fez parte dele e o exprime com a legitimidade dos sobreviventes.
Miguel Sanches Neto é escritor e crítico literário. (O texto é o prefácio do romance “Um Palmo ou Dois Acima do Chão”, de Edival Lourenço.
O Jornal Opção o publica, com um título aumentado, com expressa autorização do autor do livro.)
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