84 incidentes em 34 anos: veja a linha do tempo dos casos de tubarão em Pernambuco
Dois incidentes com tubarões registrados em menos de 24 horas elevaram para 84 o número de ocorrências contabilizadas em Pernambuco desde 1992, início da série histórica do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit). Nesta segunda-feira (01), uma mulher de 19 anos foi atacada na Praia de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, e perdeu um dos membros inferiores. Um dia antes, um menino de 11 anos havia sido mordido na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes.
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Segundo o Corpo de Bombeiros, a jovem recebeu atendimento pré-hospitalar ainda na praia e foi encaminhada inicialmente ao Hospital Alfa, sendo depois transferida para o Hospital da Restauração. Já o menino sofreu ferimentos na coxa e na mão esquerdas e também foi levado para a mesma unidade hospitalar após ser retirado da água por banhistas.
De acordo com o Cemit, há indícios de que o incidente ocorrido em Piedade tenha envolvido um tubarão-cabeça-chata. Já o ataque registrado em Boa Viagem foi atribuído pelo órgão a um tubarão-tigre de aproximadamente três metros.
A cronologia dos incidentes e do monitoramento em Pernambuco
1992 — Início a série histórica
O Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões inicia o registro oficial dos casos no estado. Desde então, Pernambuco contabiliza 83 ocorrências.
1999 — Decreto de alerta
O governo estadual publica o decreto nº 21.402, que alerta para o risco de incidentes com tubarões em áreas do litoral pernambucano. O trecho onde ocorreu o caso mais recente está incluído na área abrangida pela norma.
2015 — Monitoramento é interrompido
O acompanhamento de tubarões na costa continental pernambucana deixa de ser realizado. Atualmente, a atividade ocorre apenas em Fernando de Noronha, sob responsabilidade da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Março de 2023 — Dois ataques graves em Piedade
No dia 5 de março, um adolescente de 14 anos perdeu uma das pernas após ser atacado por um tubarão em Piedade. No dia seguinte, uma adolescente de 15 anos teve o braço esquerdo amputado após entrar no mar na mesma área.
Janeiro de 2026 — Governo anuncia retomada do monitoramento
O governo de Pernambuco lança um edital para restabelecer o monitoramento de tubarões em toda a costa continental do estado. O projeto prevê investimento superior a R$ 1 milhão ao longo de dois anos.
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31 de maio de 2026 — Novo incidente em Piedade
Um menino de 11 anos é mordido em Piedade e, no dia seguinte, uma mulher de 19 anos é atacada em Boa Viagem. O total histórico chega a 84 ocorrências.
Por que os casos se concentram no Grande Recife?
Dos 84 incidentes registrados em Pernambuco, 70 ocorreram no Grande Recife e 14 em Fernando de Noronha. Segundo o Cemit, o primeiro caso documentado pelo órgão também aconteceu na Praia de Piedade. Embora Pernambuco tenha cerca de 187 quilômetros de litoral, a faixa considerada mais suscetível a incidentes está concentrada em aproximadamente 33 quilômetros entre a Reserva do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho, e a Praia do Farol, em Olinda. Há ainda um trecho de 2,2 quilômetros entre a Igrejinha de Piedade e o Hospital da Aeronáutica onde o banho de mar é proibido.
Especialistas listam entre os motivos para a concentração de ocorrências fatores naturais da região, além de consequências da ocupação humana do litoral.
— Destaca-se a possibilidade de que alterações ambientais ocorridas na região costeira tenham influenciado a distribuição e os padrões de deslocamento de algumas espécies de tubarões. Mudanças em estuários, manguezais e outros habitats costeiros podem ter afetado áreas utilizadas para alimentação, reprodução e desenvolvimento desses animais — diz o professor de Oceanografia Alex da Costa e Silva, da UFPE.
Ele também explica que a interação entre "correntes, arrecifes, canais naturais e estuários" da costa pernambucana favorece o "deslocamento de diversas espécies marinhas, incluindo os tubarões". Ele destaca que estudos já observaram que uma parcela dos incidentes aconteceu em períodos de lua cheia ou nova, quando ocorrem as marés de sizígia.
— Nessas fases, a amplitude das marés e a intensidade das correntes de enchente e vazante são maiores, aumentando a troca de água entre o oceano, os estuários e a zona costeira. Embora não exista uma relação direta de causa e efeito, essas condições podem favorecer a movimentação de organismos marinhos e aproximar determinadas espécies de tubarões de áreas mais próximas da costa, contribuindo para aumentar a probabilidade de interações com atividades humanas.
O biológo e diretor do AquaRio Marcelo Szpilman atribui o aumento de ocorrências envolvendo tubarões no estado a partir dos anos 90 à construção do Porto de Suape. Segundo ele, as obras afetaram áreas de manguezal, diminuindo a disponibilidade de comida, e alteraram as rotas utilizadas pelas fêmeas da espécie cabeça-chata, contribuindo para uma maior presença desses animais na região do Grande Recife.
— Em 1994, aconteceu um pico de 14 ataques. Você tem um animal naturalmente mais agressivo que busca alimento em uma área de água turva onde há pessoas — diz o biológo, referindo-se a características das águas do litoral pernambucano.
Segundo Szpilman, os tubarões-cabeça-chata usam rios para parir seus filhotes, e a construção do porto teria dificultado o acesso a essas áreas, o que, juntamente com a menor oferta de alimentos, levou à migração para outras porções do litoral. O biólogo acrescenta que as piores ocorrências costumam envolver fêmeas cabeça-chata grávidas. Quando estão prestes a parir, elas se aproximam da faixa de areia, ficando perto de banhistas.
— Ela para por um período perto da areia na água rasa e alguém sem vê-la porque a agua é turva. A fêmea dá uma mordida, mas com raiva.
A professora Ana Paula Valença de Barros, também da UFPE, afirma que, entre os fatores que podem ter contribuído para o aumento dos casos, está a construção do Complexo Industrial Portuário de Suape. Ela acrescenta, no entanto, que fenômenos como esse não tem uma causa única.
— Essa concentração (de casos) está associada a uma combinação de fatores como a presença de águas relativamente profundas próximas à costa; a existência de canais naturais entre os recifes; forte influência de estuários na região e uma sobreposição entre as áreas utilizadas por tubarões e banhistas — diz a professora, que destaca as águas turvas da região como outro fator importante.
Apesar da avaliação dos pesquisadores indicar que a construção do Porto de Suape pode ter contribuído para as ocorrências, o Ministério Público Federal arquivou no ano passado um inquérito que apurava a responsabilidade do porto nos incidentes. Para o órgão, não foi possível demonstrar que a "instalação do complexo portuário tenha sido a única e decisiva causa".
Cabeça-chata e tigre: os tubarões mais associados aos incidentes
Os dois casos registrados em menos de 24 horas envolveram espécies diferentes. Segundo o Cemit, há indícios de que o menino atacado em Piedade tenha sido mordido por um tubarão-cabeça-chata, enquanto o incidente em Boa Viagem foi atribuído a um tubarão-tigre de cerca de três metros.
De acordo com Szpilman, os cabeça-chata estão envolvidos na maior parte dos incidentes registrados em Pernambuco. A espécie costuma frequentar águas rasas e turvas e, em muitos casos, realiza a chamada "mordida investigatória", quando tenta identificar se o alvo faz parte de sua alimentação.
A pesquisadora Mariana Rêgo, do Cemit e da UFRPE, explica que o tubarão-tigre e o cabeça-chata têm comportamentos distintos. Enquanto o tigre é uma espécie migratória e de alimentação variada, o cabeça-chata é mais territorialista e costuma caçar peixes e outros animais menores próximos à costa.
