Realizado em meio à crise que atinge o Supremo Tribunal Federal (STF) por causa da revelações de uma leva de mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes, o desfile de 7 de setembro nesta segunda-feira teve conversas ao pé do ouvido entre lideranças políticas que acompanhavam o evento da tribuna presidencial. Sob os holofotes durante as duas horas do ato, as autoridades presentes não deixaram transparecer desconforto ou mal-estar. Apesar da batalha de bastidores entre os órgãos que comandam, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o advogado-geral da União, Jorge Messias, por exemplo,deram um abraço caloroso ao se cumprimentarem. O chefe da PF fez questão de procurar o colega logo depois de chegar à tribuna montada na Esplanada dos Ministérios. Messias foi citado em relatório da Polícia Federal usado por Moraes para apontar supostas irregularidades cometidas pelo colega André Mendonça na condução das investigações sobre o caso Master e as fraudes no INSS. Em nota, a AGU afirmou que decidiu não adotar as medidas solicitadas pela PF para contestar decisões de Mendonça. Segundo o órgão, a decisão "decorreu de análise estritamente técnica e jurídica", levando em consideração decisões de natureza procedimental tomadas por Mendonça.
Em conversas reservadas, Messias afirma que Andrei atua junto com Moraes e o ministro Flávio Dino para enfraquecê-lo. O chefe da AGU teve o nome rejeitado pelo Senado para uma vaga no Supremo em abril. Lula já declarou a intenção de indicá-lo novamente, mas um grupo de aliados tenta convencer o presidente a adotar uma outra solução.
O presidente Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, se cumprimentam no desfile do 7 de Setembro Cristiano Mariz Em um momento em que busca apoio do Congresso para aprovar projetos do interesse ainda antes do segundo turno da eleição, como o fim da escala 6 x 1, Lula foi acompanhado no desfile pelos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre, e conversou com ambos antes de a cerimônia começar. Alcolumbre e Motta também conversaram ao pé do ouvido antes da chegada de Lula em meio a gargalhadas. Ainda antes de o presidente desembarcar do Rolls Royce em frente à tribuna, Motta também teve uma conversa reservada, essa em tom mais sério, com o vice-presidente Geraldo Alckmin. Ao final do desfile, Lula desceu da tribuna e cumprimentou parte do público presente antes de chegar ao carro que o levou embora. O desfile Lula levou temas eleitorais para o desfile, como a defesa da soberania nacional e dos direitos das mulheres. A apresentação durou duas horas e foi dividida em três eixos: “Soberania, a força que une o Brasil”, “Brasil unido pela proteção de meninas e mulheres” e a Copa do Mundo Feminina 2027. A vacinação também esteve entre os temas explorados durante a cerimônia. A soberania, uma das linhas principais da campanha petista, teve espaço de destaque no desfile. Além do slogan principal, foi repetida diversas vezes na fala dos narradores da apresentação. O tema ganhou espaço na campanha de Lula ao quarto mandato em meio aos embates comerciais com os Estados Unidos e será reforçado este mês, quando Lula viaja a Nova York para a Assembleia Geral das Nações Unidas.
A expectativa é que o brasileiro volte a se encontrar com o presidente Donald Trump depois de uma nova rodada de sobretaxas impostas pelo governo americano a produtos do país. A Advocacia-Geral da União (AGU) acompanhou os preparativos do desfile para evitar que algum ponto configurasse propaganda eleitoral antecipada e abrisse brecha para adversários contestarem no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ainda durante a cerimônia, o perfil de Lula nas redes sociais publicou um material de campanha, com uma foto da bandeira do Brasil e a legenda: “A bandeira do povo brasileiro é a bandeira do Brasil”. O objetivo é fazer um contraponto ao uso da bandeira dos Estados Unidos, que já apareceu em atos bolsonaristas. Sem ministros do STF O presidente do STF, Edson Fachin, foi o único integrante da Corte presente. Envolvido em um embate com André Mendonça, Alexandre de Moraes não foi. Gilmar Mendes e Flávio Dino estão fora de Brasília e também não compareceram, assim como Cristiano Zanin. Os quatros compõem o grupo com maior interlocução com o presidente da República na Corte. No início do mês passado, antes de a crise eclodir, Lula se reuniu com Alcolumbre, de quem estava distante, na casa de Moraes. Zanin também participou. No ano passado, nenhum ministro da Corte compareceu ao evento, que aconteceu durante o julgamento que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por participação na trama golpista de 2023. Já em 2024, Moraes, Dino, Gilmare Zanin estiveram no desfile, acompanhados de Luís Roberto Barroso (então presidente da Corte e hoje aposentado), e dos ministros Dias Toffoli e Edson Fachin. Como mostrou O GLOBO, Lula tenta se distanciar da crise no STF. Na quinta-feira, o presidente gravou um vídeo de pouco mais de um minuto em que não cita diretamente Moraes, mas diz que há suspeita de envolvimento de políticos e agentes públicos no caso Master.
O Globo