A inteligência artificial avança dentro das empresas brasileiras, mas ainda esbarra em uma barreira importante: a confiança.
Segundo um levantamento global da Iron Mountain, empresa de armazenamento de dados, 57% dos entrevistados no Brasil dizem não ter confiança em decisões tomadas por IA sem validação humana.
Apesar de elevado, o percentual brasileiro fica abaixo dos 69% registrados globalmente.
O recorte faz parte da pesquisa Content Intelligence, que buscou avaliar a maturidade das organizações no uso e na gestão de dados para aplicações de inteligência artificial.
O problema não se limita à necessidade de manter uma pessoa conferindo o trabalho da tecnologia.
Oito em cada dez entrevistados no Brasil (82%) afirmam que preocupações com a procedência e a integridade das informações limitam a adoção de automações baseadas em IA com confiança.
Outros 72% dizem que é necessário fortalecer a governança para confiar plenamente na tecnologia e colocá-la em operação – ante 84% na amostra global.
Para Ana Carla Martins Neto, diretora Latam da Iron Mountain, a discussão ganha importância à medida que empresas deixam a fase de simplesmente experimentar a tecnologia e passam a usá-la para apoiar decisões.
Ana Carla Martins Neto, diretora Latam da Iron Mountain
Divulgação
“O problema não é gerar dashboard bacana com a IA, uma apresentação.
O problema é você acreditar que o que ela está trazendo é informação verídica e relevante para você tomar uma decisão”, afirma.
Segundo a executiva, o cenário exige que as companhias discutam não apenas a capacidade dos modelos, mas a qualidade das informações usadas por eles.
“O mais importante é: quem é que toma a decisão? Vamos tomar acreditando na IA ou vamos ter que colocar o time?”, diz.
Dados desorganizados ainda consomem tempo
A pesquisa mostra que esse desafio começa antes mesmo de a informação chegar aos sistemas de IA.
No Brasil, funcionários de áreas de negócio perdem, em média, 39% do tempo com processos de verificação e dificuldades para encontrar informações.
Além disso, 79% dos entrevistados afirmam que equipes especializadas de TI e dados ainda gastam tempo organizando e preparando dados manualmente.
Há também uma pressão maior provocada pelo crescimento do volume de informações.
60% dos brasileiros apontam o rápido crescimento do conteúdo digital como um desafio, ante 49% globalmente.
Outros 49% mencionam preocupações relacionadas à exclusão de dados, contra 42% na média mundial.
Sistemas antigos adicionam outra camada ao problema.
Segundo o levantamento, 24% dos orçamentos de TI das empresas brasileiras são destinados à manutenção de sistemas legados, ante 21% globalmente.
“O Brasil é um país que sempre esteve na vanguarda com essa questão de tecnologia.
A gente quer muito fazer, mas ainda é um país que, por exemplo, tem uma infraestrutura em que o sistema legado ainda é mais desafiador do que em outros lugares do mundo”, afirma a diretora.
A consequência, segundo ela, é uma limitação na maneira como as companhias conseguem organizar e utilizar as informações.
“Por isso é tão importante que a gente valide como tratar o dado, inclusive o que está sendo gerado ainda por esses sistemas legados.”
Apesar disso, o impacto desses obstáculos sobre projetos de IA aparece menor no Brasil do que na amostra global.
Em média, 28% das iniciativas são atrasadas ou ficam paralisadas no país, contra 33% globalmente; 22% são canceladas, ante 25% no levantamento global.
Empresas já relatam ganhos de receita e lucro
O estudo divide as organizações em três grupos de acordo com sua maturidade na gestão de conteúdo.
No Brasil, 10% são classificadas como “Content Accelerators”, estágio mais avançado, ante 8% globalmente.
Outros 68% são “Connectors”, contra 75% no mundo, enquanto 22% permanecem entre os “Custodians”, grupo de menor maturidade, ante 17% globalmente.
Mesmo com uma parcela maior de organizações no estágio inicial, empresas brasileiras relatam resultados relevantes.
58% apontam aumento de receita e 56%, crescimento da lucratividade.
Outros 58% relatam ganhos tanto na produtividade dos funcionários quanto na velocidade da tomada de decisões.
Ana Clara ressalta, porém, que os números não permitem concluir que os investimentos em IA já estejam se pagando.
“A gente precisa provar que, de fato, vai trazer valor, a gente precisa provar que o retorno do investimento de fato existe.
Isso é uma necessidade dos clientes para continuar, inclusive, investindo.”
Ao mesmo tempo, a disposição para avançar permanece elevada.
De acordo com os dados fornecidos pela Iron Mountain, 95% das organizações brasileiras planejam fazer ao menos investimentos moderados em soluções capazes de transformar conteúdo não estruturado em dados preparados para IA.
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