35 anos do GP do Brasil de 1991: a história do 'Tema da vitória' de Senna contada por seu compositor
Há 35 anos, num dia 24 de março como esse, mas num domingo, Ayrton Senna era o primeiro a atravessar a linha de chegada do GP do Brasil no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Era, também, a primeira vez que ele conseguia vencer a etapa, exausto após passar as últimas voltas apenas com a sexta marcha.
A McLaren de Senna, com sua icônica pintura da Marlboro, foi embalada, na reta final, pelos gritos empolgados do então narrador da Globo Galvão Bueno. E, após cruzar a linha de chegada, tocou a música que lembra até hoje aquele capacete verde e amarelo tremendo com as vibrações do motor: o “Tema da vitória”.
Preparativos e Treinos - Ayrton Senna
Julio Cesar Guimarães / Agência O Globo / 22.3.1991
A composição do hino 'não oficial' do Brasil
— Foi normal, nada demais — é assim que Eduardo Souto Neto, maestro e compositor, fala do nascimento do que pode ser considerado até hoje um segundo hino brasileiro.
O ano era 1981, Eduardo trabalhava como compositor de vinhetas para a Rede Globo e o então diretor musical da emissora, Márcio Tonucci, tinha um desejo: sonorizar a Fórmula 1.
Souto Neto foi escalado para compor a canção que tocaria ao fim de todo GP do Brasil — que, naquela altura, era disputado no antigo Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
— Era um pouco mais trabalhoso, era um tema maior, para emocionar o vitorioso. Juntei o pessoal do Roupa Nova. Aí eles ficaram esperando, eu fiz a música, a gente gravou ali na hora a base, depois fiz o arranjo de metais e de cordas, gravei no mesmo dia — explica ele.
Estava feito o “Tema da vitória”. No entanto, a música só se tornaria lenda anos depois. Relembre abaixo, ponto a ponto, como foi.
A primeira vez: vitória de rival histórico de Senna
A jornada começa tímida, sem pessoalidade: o “Tema da vitória” era uma música feita para ser tocada no GP do Brasil — com transmissão a partir da Globo — e apenas lá, pegando emprestada a banda de som em que eram transmitidos também o som dos motores e da torcida. Para acontecer, foi necessária uma liberação especial da FIA (Federação Internacional de Automobilismo).
O grande prêmio daquele ano de 1981 seria vencido por Alain Prost, que, anos depois, protagonizaria uma das maiores polêmicas da F1, quando Ayrton Senna acusou Jean-Marie Balestre de favorecer o piloto francês numa disputa de título mundial.
— Aí não tocaram mais — diz Eduardo.
A música ficaria guardada até a vitória do brasileiro Nelson Piquet em 1983, no Brasil, e só depois se tornou a música para as conquistas de brasileiros na F1.
Só que Nelson Piquet ainda não daria força à música. Não como Senna...
— O Nelson Piquet, ele ganhava ou perdia, e era: “Ah, não tô nem aí”, sabe? Blasé — acusa o maestro, rindo, que completa: — Se uma pessoa ganha mas não dá importância pra isso, como era o caso do Piquet, a música não faz sentido.
A chegada de Senna e seu espírito vitorioso
Senna entrou na categoria em 1984, no GP do Brasil, conquistando sua primeira vitória um ano depois, no GP de Portugal, no autódromo de Estoril. Para Eduardo, Senna era o extremo oposto de Piquet: demonstrava sentimentos, tinha a “gana do vitorioso”.
— O Ayrton Senna, no carro, quebrava, ele batia, ficou chateado, esperneava, e quando ganhava ele vibrava como qualquer um de nós vibraria — diz o maestro, que segue: — Ele encarnou a vitória mesmo, o cara que luta pra caramba, que não ganha sempre, mas, quando ganha, faz as pessoas se identificarem com ele.
Com Senna e sua personalidade, a música passou a ter sentido, saindo de uma simples vinheta para se tornar, de fato, uma música e, eventualmente, o hino de Ayrton Senna.
Reconhecimento pela composição do 'Tema da vitória'
Eduardo não se incomoda em não ser reconhecido pela sua música. Muito pelo contrário: fica feliz com o fato de a música ter se tornado “a música do Senna”:
— Quando falam com carinho, é perfeito, porque é mesmo, se tornou dele.
Eduardo Souto Neto, compositor do Tema da Vitória
Acervo Pessoal
Após a morte de Senna, em 1994, música, que tanto se assimilou ao piloto, se tornou quase que um hino não-oficial das conquistas brasileiras em esportes.
Mais recentemente, a vitória de Lucas Pinheiro Bratheem nas Olimpíadas de Inverno, na Itália, foi embalada pelo “Tema da vitória”, sendo tocada pelo DJ que estava no local.
Eduardo relembra o penta de 2002, quando a música também foi tocada:
— Eu chorei com o Brasil pentacampeão, e tocando o “Tema da vitória”. Cara, eu jamais poderia pensar numa coisa dessa!
A música foi tocada em um mix com o hino nacional. Confira abaixo o momento da vitória do Brasil na Copa do Mundo daquele ano:
Outras canções que embalaram — e embalam — o país
Essa, no entanto, não é a única composição de Eduardo que você provavelmente, conhece: ele também compôs a música tema do Rock in Rio, que embalou o Brasil ao fim da ditadura militar, em 1985. A letra é do parceiro Nelson Wellington:
— Ele que fez a letra, que eu acho fabulosa, porque é uma letra que acabou, tanto a música quanto a letra, se tornando atemporal.
Além disso, Eduardo compôs arranjos para alguns dos principais artistas da MPB, como Gal Costa, Marisa Monte, Rita Lee e Ivan Lins, sendo ganhador de prêmios de melhor arranjador por discos como "Retrato" (1995), de Fagner; “Amores e boleros” (1996), de Tânia Alves; e “Todo o sentimento” (1997), de Agnaldo Rayol.
Eduardo também criou arranjos para diversos jingles, como os dos cigarros Hollywood e Carlton. Também foi arranjador de um marcante comercial do Brahma Chopp, com João Gilberto ao violão. Confira abaixo:
Eduardo fez arranjo para famoso comercial da Brahma Chopp
