31º Festival É Tudo Verdade tem como vencedores 'Um Filme de Medo' e 'Sagrado'

 

Fonte:


Em sua 31ª edição, em São Paulo e no Rio de Janeiro, o É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários anunciou no sábado (18) os vencedores de 2026. Os dois grandes vencedores foram "Sonhos de Apagão" e "Um Filme de Medo". Os filmes das competições principais recebem o Troféu É Tudo Verdade, criado por Carlito Carvalhosa, e se tornam elegíveis para consideração para o Oscar. Desde 2018, o É Tudo Verdade é reconhecido como um “Qualifying Festival” pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. O festival teve cobertura do Grupo Liberal por intermédio do jornalista e crítico de cinema Ismaelino Pinto. 

O grande vencedor da Competição Internacional de Longas ou Médias-Metragens foi "Um Filme de Medo" (Espanha/Portugal), do diretor brasileiro sediado na Espanha Sergio Oksman. Ele se hospedou com o filho de doze anos em um hotel em Lisboa parecido com aquele abandonado do clássico "O Iluminado", de Stanley Kubrick. O filme recebe um prêmio de R$ 12.000.

De acordo com a justificativa do júri: "Em um filme de terror, não há monstros, apenas a distância entre dois mundos, pai e filho. O pai tem medo de herdar os fantasmas do passado, e o filho caminha leve, quase sem sombra".

As articulações entre família e política propostas pela estreante Jihan em "Meu Pai e Gaddafi" receberam do júri uma menção honrosa. O júri justificou essa escolha, assim: "A partir da busca da filha por seu pai, somos conduzidos a conhecer as tramas de poder em um país atravessado pelo conflito".

Entre os curtas internacionais, o premiado foi "Sonhos de Apagão", de Gabriele Licchelli, Francesco Lorusso e Andrea Settembrini, sobre os blecautes em Cuba. O filme recebe ainda R$ 6.000. "Uma sociedade agredida por meio do tempo e como viver com infindáveis boicotes. A ausência de energia elétrica na ilha se transforma em um recurso expressivo e cinematográfico", como se expressou o júri sobre essa escolha.

Na mesma categoria, o júri concedeu menção honrosa ao francês "Se Não Gosta, Não Olhe", da diretora estreante Margaux Fournier. A justificativa dos jurados: "Na areia, sob o céu aberto, mulheres aposentadas e irreverentes se encontram com frequência, transbordando amor pela vida. Falam sem filtro — sinceras, diretas, vivas. Um cinema dintimidade,de onde o corpo é político".

O júri da competição internacional deste ano foi composto pela produtora, realizadora e diretora de fotografia Heloisa Passos (Eneida, 2022), pelo documentarista e produtor Ricardo Casas (El Padre de Gardel, 2014) e pela cineasta Vivian Ostrovsky, homenageada pela retrospectiva desta edição do É Tudo Verdade.

A paulistana Alice Riff venceu a Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens com "Sagrado". O filme mergulha na rotina de professores e funcionários de uma escola pública em Diadema, na Grande São Paulo. O filme recebe ainda um prêmio de R$ 20.000.

De acordo com o júri:"Por afirmar, com rara precisão, um cinema em que a política se inscreve na forma, no gesto e nas relações do cotidiano. Sem recorrer a artifícios, o filme sustenta, do título ao último plano, uma direção segura, rigorosa e profundamente consciente de seus meios. Ao escolher uma estratégia narrativa fundada na escuta, na observação e no respeito radical aos seus personagens, constrói uma experiência em que o invisível se torna presença sensível. A partir de um material de arquivo que prescinde de explicação, o filme se organiza em espiral até alcançar um plano-sequência final de grande potência, conduzido pelas vozes das crianças. Nesse gesto, simples apenas na aparência, o filme se afirma como uma obra de rara integridade, em que elaboração estética e potência política são indissociáveis. E afirma, com delicadeza e rigor, um cinema onde invenção, poesia e luta se tornam indissociáveis". 

"Apopcalipse Segundo Baby, o retrato de Baby do Brasil", dirigido por Rafael Saar, recebeu a menção honrosa na mesma categoria. "Por articular, de forma visceral e autêntica, a personalidade da protagonista e sua persona performática, incorporando à própria forma do filme sua força, energia e pulsação. Ao evocar a memória da música popular brasileira, o filme constrói um retrato fiel e vibrante, que preserva a originalidade da personagem e revela um trabalho rigoroso de pesquisa e elaboração. No uso dos materiais de arquivo, evidencia-se o rigor, o cuidado e o profundo respeito do realizador”, disse o júri sobre o filme. 

O título de estreia do pernambucano Douglas Henrique, "Os Arcos Dourados de Olinda", sobre o embate em torno da instalação de uma unidade da rede McDonald’s, foi escolhido o melhor curta-metragem brasileiro, com um prêmio de R$ 6.000. Acerca do filme, o júri destacou: "Pela irreverência e pelo humor na construção de uma narrativa lúdica que surpreende ao reinventar o uso do material de arquivo. Ao transfigurá-lo com liberdade e invenção, o filme constrói uma crítica ao imperialismo ao mesmo tempo afiada e desarmada, que assume sem receio o popular, o clichê e as contradições da própria identidade".

Ainda nessa categoria, o júri concedeu menção honrosa a dois filmes: "Filme-Copacabana", da também estreante Sofia Leão, e "Divino: Sua Alma, Sua Lente", dirigido por Clea Torres e Gilson Costta. Sobre "Filme-Copacabana", o júri considerou: "Pela ousadia da proposta e pelo uso inventivo do som como eixo de montagem, articulando afetos e corpos na construção de um retrato sensível de um território múltiplo".E sobre "Divino: Sua Alma, Sua Lente": 

"Pela força singular de Divino em cena e pela maneira como transforma o gesto de filmar em um ato de memória e permanência. Ao incorporar o próprio processo à narrativa, o filme revela uma reflexão viva sobre imagem, tempo e continuidade".

O júri da competição brasileira foi composto pela documentarista e montadora Carol Benjamin ("Fico te Devendo uma Carta Sobre o Brasil", 2019), pelo diretor Eryk Rocha ("Rocha que Voa", 2002) e pela pesquisadora e cineasta Helena Tassara.

Panorama pulsante

“O júri brasileiro destaca a força e a vitalidade dos filmes em competição na seleção de 2026, tanto nos longas quanto nos curtas. O conjunto das obras desenha um panorama pulsante do documentário brasileiro contemporâneo, em que formas e narrativas se reinventam com rigor, liberdade e risco. São filmes atravessados por gestos autorais contundentes, que afirmam, na pluralidade de perspectivas, a potência criadora de um cinema em permanente transformação. Desse campo de tensões emerge um cinema múltiplo, indisciplinado e profundamente comprometido com seu tempo”, os jurados escreveram ao revelar os premiados.

A 31ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários conta com o patrocínio do Itaú, a parceria do Sesc-SP e o apoio cultural da Spcine, Galo da Manhã, Fundação Itaú e Itaú Cultural. A realização está a cargo do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, e Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas.

O festival apresentou 75 filmes de 25 países, exibidos em sessões gratuitas em quatro salas em São Paulo e em três salas no Rio de Janeiro. Uma programação exclusiva em streaming no Itaú Cultural Play exibe, entre 20 de abril e 5 de maio, 10 destaques entre os curtas-metragens desta 31ª edição.

A retrospectiva de 2026 foi dedicada aos 80 anos da cineasta Vivian Ostrovsky (nascida em Nova York, criada no Rio de Janeiro e formada em Paris). Com curadoria da também cineasta e pesquisadora Fernanda Pessoa, foram apresentados 14 filmes, percorrendo quatro décadas de produção e com imagens captadas em mais de dez países. A mostra inclui ainda um filme inédito sobre Vivian dirigido por Fernanda.

O festival prestou ainda homenagem a cinco documentaristas: Jean-Claude Bernardet, com a exibição de Sobre Anos 60 (2000), Luiz Ferraz e Rubens Crispim Jr., com Em Nome do Jogo (2025), Silvio Da-Rin, com Missão 115 (2018), e Silvio Tendler, com Os Anos JK – Uma Trajetória Política (1980).

Premiação paralela

Na cerimônia, também foram anunciados os vencedores dos prêmios paralelos: Prêmio Canal Brasil de Curtas

R$ 15.000 + Troféu Canal Brasil para o melhor documentário da Competição Brasileira: Curtas-Metragens - Vencedor: "Os Arcos Dourados de Olinda", de Douglas Henrique; Prêmio Mistika

R$ 15.000 em serviços de pós-produção de imagem ou som, com validade de um ano, para o melhor documentário da Competição Brasileira: Curtas-Metragens - Vencedor: "Os Arcos Dourados de Olinda", de Douglas Henrique; Prêmio edt. (Associação de Profissionais de Edição Audiovisual)

Troféu edt. para as melhores montagens da Competição Brasileira: Curtas-Metragens e da Competição Brasileira: Longas ou Médias-Metragens - Vencedores: "Os Arcos Dourados de Olinda", com montagem de Douglas Henrique, e "Apopcalipse Segundo Baby", com montagem de Claudio Tammela e Rafael Saar e assistência de montagem de Mayara Proença e Vinícius Medeiros.

Prêmio Maria Rita Galvão Pavic - Pesquisadores de Audiovisual, Iconografia e Conteúdo, ABPA - Associação Brasileira de Preservação Audiovisual e Repia - Rede de Pesquisa de Imagens de Arquivo / R$ 6.000 (Pavic /Abrolhos Filmes) e gravação em LTO (ABPA/Repia/Museu da Pessoa) para a melhor pesquisa da Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens - Vencedor: "Apopcalipse Segundo Baby", com direção e pesquisa de Rafael Saar.

Prêmio Apaci (Associação Paulista de Cineastas)

Troféu Apaci para as melhores direções da Competição Brasileira: Curtas-Metragens e da Competição Brasileira: Longas ou Médias-Metragens - Vencedores: "Os Arcos Dourados de Olinda", de Douglas Henrique, e "Sagrado", de Alice Riff.