Doze dias de viagem, 30,6 mil quilômetros percorridos, 12 voos de avião e dois deslocamentos de helicóptero. Aos 71 anos, o Papa Leão XIV inicia nesta sexta-feira uma das agendas internacionais mais intensas de seu pontificado, com passagens por Uruguai, Argentina e Peru.
O roteiro prevê nove missas, 36 discursos e cerca de 50 compromissos em dez cidades, menos de quatro semanas depois de o líder da Igreja Católica passar por uma cirurgia para retirar parte do pulmão direito, após receber um diagnóstico de câncer. Vaticano descarta mudanças.
Contexto: Brasil está na agenda? Saiba quais países estão no roteiro da viagem do Papa Leão XIV pela América do Sul Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países
Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp A viagem, que se estenderá até 17 de novembro, colocará à prova a resistência física do Pontífice.
Além da sucessão de deslocamentos e encontros com autoridades, religiosos e fiéis, a programação inclui uma passagem por Cusco, no Peru, cidade situada a mais de 3.350 metros acima do nível do mar. A altitude elevada, onde a disponibilidade de oxigênio é menor, representa um desafio adicional para alguém que passou recentemente por uma operação pulmonar.
Em um intervalo de apenas seis horas, Leão XIV deverá desembarcar em Cusco para conduzir uma celebração de oração e bênção e, em seguida, embarcar novamente, desta vez com destino à região amazônica de Pucallpa, onde celebrará uma missa. O percurso é um dos trechos mais exigentes de uma programação que também prevê reuniões com dezenas de políticos, diplomatas e bispos, além de visitas a uma prisão, universidades e instituições de atendimento a idosos e pessoas com deficiência.
A intensidade do roteiro chegou a colocar em dúvida a realização da viagem. Logo após o diagnóstico de câncer, o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, admitiu a possibilidade de uma reformulação da agenda.
No entanto, após receber autorização médica, o Papa decidiu manter todos os compromissos originalmente previstos. Altitude elevada e recuperação pulmonar
A passagem por Cusco é um dos pontos que mais despertam a atenção de especialistas, sobretudo pelo pouco tempo transcorrido desde a cirurgia. O Santo Padre foi submetido, em outubro, à retirada de um lobo do pulmão direito, depois que exames de rotina identificaram uma pequena lesão posteriormente confirmada como câncer.
Segundo os médicos que o acompanham, o tumor foi identificado precocemente e Leão XIV não precisará de tratamento adicional. Ele recebeu alta hospitalar poucos dias após a operação e, desde então, retomou a rotina de audiências e encontros no Vaticano.
No último fim de semana, chegou a brincar com uma bola de basquete durante uma reunião com equipes universitárias americanas. Especialistas ouvidos pelo New York Times explicam que regiões de grande altitude podem impor maior esforço ao coração e aos pulmões, mas ressaltam que a retirada cirúrgica de um tumor pulmonar não impede necessariamente viagens a locais elevados.
A oncologista Lecia Sequist, professora da Faculdade de Medicina de Harvard, observou que pacientes cujos tumores são detectados precocemente podem recuperar suas atividades em poucas semanas. Já o pneumologista Matthew Triplette, do Fred Hutchinson Cancer Center, apontou que a menor disponibilidade de oxigênio em grandes altitudes pode intensificar a sensação de fadiga durante esforços físicos.
Vaticano descarta mudanças na programação Apesar das preocupações, o Vaticano afirma que não serão necessárias medidas médicas extraordinárias.
O Papa viajará acompanhado da estrutura habitual de assistência, com profissionais de saúde disponíveis durante os deslocamentos. — Ele terá bastante assistência médica a bordo, caso alguma coisa aconteça — afirmou Maria Montserrat Alvarado, responsável pela comunicação eclesiástica, ao comentar os preparativos da viagem.
Curado: Leão XIV não precisará de outros tratamentos após cirurgia de câncer, afirmam médicos A avaliação da equipe médica é que Leão XIV reúne condições para cumprir a programação integralmente.
De acordo com a Igreja Católica, ele segue cuidadosamente as recomendações dos profissionais responsáveis por sua recuperação. Mesmo sem alterações formais no itinerário, algumas providências foram tomadas para reduzir o desgaste físico.
Em Lima, também no Peru, os organizadores planejaram os deslocamentos no papamóvel de modo que o Pontífice não precise permanecer de pé por períodos prolongados. Em pelo menos um dos locais que visitará, ele também poderá utilizar um elevador em vez de subir escadas.
Preparativos em uma base aérea onde o Papa Leão XIII celebrará missa em Lima, Peru Ernesto Benavides/AFP
Há ainda a possibilidade de pequenos intervalos adicionais de descanso entre os compromissos. O cirurgião torácico Francesco Facciolo, que não integra a equipe médica do pontífice, afirmou que pausas inicialmente previstas para durar 15 minutos poderiam ser ampliadas para 25 ou 30 minutos.
Três países e retorno à terra de Francisco O roteiro começa pelo Uruguai, considerado um dos países mais secularizados da América Latina, região onde a Igreja Católica enfrenta uma redução da participação dos fiéis e o avanço de denominações evangélicas.
No domingo, Leão XIV chegará à Argentina, país natal de seu antecessor, Papa Francisco (1936 — 2025), que nunca voltou à terra de origem durante os 12 anos em que esteve à frente da Igreja Católica. A visita tem forte significado simbólico e deverá incluir encontros com representantes religiosos, autoridades e pessoas em situação de vulnerabilidade.
Uma mulher caminha ao lado de um mural que retrata o Papa Francisco (à esquerda) e o Papa Leão XIV (à direita), em La Matanza, na província de Buenos Aires, Argentina, em 28 de outubro de 2026. A obra antecede a visita de Leão XIV ao país, prevista entre 8 e 11 de novembro
LUIS ROBAYO Na quarta-feira, o Bispo de Roma seguirá para o Peru, país com o qual mantém uma relação particularmente próxima.
Nascido nos Estados Unidos, ele passou cerca de duas décadas de sua trajetória religiosa em território peruano, onde atuou como missionário e bispo de Chiclayo. A experiência foi decisiva para sua formação e para sua ascensão na hierarquia da Igreja.
Ele também adquiriu a cidadania peruana. Durante a passagem pelo país, o Papa voltará a Chiclayo e visitará localidades que raramente recebem um pontífice.
Em Pucallpa, na Amazônia, estão previstos encontros com missionários e representantes de comunidades indígenas. Além da altitude, outro fator poderá dificultar os deslocamentos: chuvas intensas associadas ao fenômeno El Niño têm potencial para atingir alguns dos destinos incluídos na programação.
Multidões e encontros políticos A expectativa é de que as celebrações religiosas mobilizem multidões.
Em Buenos Aires, capital da Argentina, mais de um milhão de pessoas são esperadas para uma missa. Já a celebração de encerramento da viagem, na Base Aérea de Las Palmas, em Lima, poderá reunir aproximadamente 1,2 milhão de fiéis.
O roteiro também inclui encontros com dois líderes próximos ao governo do presidente dos EUA, Donald Trump: Javier Milei, na Argentina, e Keiko Fujimori, no Peru. As reuniões poderão expor diferenças entre as posições políticas dos governantes e as prioridades defendidas pelo Pontífice, que há menos de dois meses declarou que a associação entre posições políticas de extrema direita e determinadas correntes religiosas não representa o cristianismo.
Na Argentina, por exemplo, Leão XIV visitará uma prisão federal e uma instituição de atendimento a pessoas com deficiência afetada pelos cortes de gastos sociais promovidos pelo governo Milei. O Papa também tem defendido maior proteção às populações vulneráveis diante dos avanços da inteligência artificial, tema em que apresenta divergências com o presidente argentino.
No Peru, o encontro com Fujimori ocorre em um contexto particularmente sensível. Durante sua atuação religiosa no país, Leão XIV se manifestou contra a violência associada ao governo de Alberto Fujimori, pai da atual presidente, posteriormente condenado por violações de direitos humanos.
A passagem pela América Latina também terá encontros com sobreviventes de abusos cometidos por membros da Igreja Católica, previstos na Argentina e no Peru. 'Quando ele assume um compromisso, leva até o fim'
Para pessoas próximas ao pontífice, a decisão de manter a programação, apesar da cirurgia recente, reflete sua determinação em cumprir os compromissos assumidos. O padre Arthur Purcaro, que trabalhou com Leão XIV como missionário na região andina do Peru, destacou essa característica do Papa.
— Quando ele assume um compromisso, leva até o fim — afirmou ao New York Times. A decisão também pode ser interpretada como uma demonstração de perseverança diante das limitações impostas pela doença, avaliam especialistas.
Para o arcebispo Paul Gallagher, responsável pela diplomacia do Vaticano, o diagnóstico trouxe uma nova percepção sobre a figura do pontífice. — Antes da doença, havia a tentação de pensar que tínhamos um super-homem, um superpapa — afirmou Gallagher, durante um encontro com jornalistas no mês passado.
— O fato de ele ter adoecido com uma das doenças mais comuns de nossa época mostra que é um simples mortal, como todos nós. (Com New York Times)
O Globo