15 anos da Primavera Árabe: o que restou das promessas de mudança?
Há 15 anos, grandes manifestações mudaram os rumos do mundo árabe. Mesmo com histórias e regimes de governo muito diferentes, aspectos comuns como a violência policial, a instabilidade política e o subdesenvolvimento econômico geraram insatisfações que eclodiram em protestos na Tunísia, no Egito, na Líbia e outros países nos quais, hoje, observamos regimes autoritários e crises humanitárias.
Em dezembro de 2010, Mohamed Bouazizi, 26, um jovem vendedor tunisiano que ateou fogo a si mesmo depois de ter o carrinho de frutas confiscado pela polícia, tornou-se o símbolo de uma geração marcada pela corrupção em contraste com a pobreza crescente, a insegurança e a repressão violenta dos regimes no poder. O ato em protesto contra a violência policial foi impulsionado pelas redes sociais. Logo, como em um efeito dominó, milhões de pessoas tomaram as ruas de países do Norte da África e do Oriente Médio, dando início à Primavera Árabe.
Então presidente Zine El Abidine Ben Ali visita Bouazizi, em coma, no hospital
Reprodução
Os primeiros eventos ocorreram na Tunísia, onde o presidente Zine El Abidine Ben Ali, que estava há 23 anos no poder, deixou o governo e fugiu para a Arábia Saudita.
Inspirados pelos protestos tunisianos, egípcios também foram às ruas contra a corrupção e pobreza. Manifestantes tomaram a Praça Tahrir, na capital Cairo, em uma imagem emblemática que circulou o mundo (veja acima). O presidente, Hosni Mubarak, renunciou ao poder 18 dias depois do início dos atos em 2011.
O guia turístico egípcio Mohamed Besheer participou das manifestações e tem memórias vivas do momento. “Um momento especial, porque pela primeira vez podemos por fim e ter um sonho”, explica. Besheer relata que as manifestações começaram de forma pacífica, mas escalaram para eventos violentos com a chegada das polícias”.
“As manifestações não estavam somente na praça Tahir, no Cairo, mas em todo o Egito. Estavam pedindo somente mudanças políticas e sociais, protestando especialmente contra a força da polícia neste tempo”
Mas quinze anos depois, o que restou das promessas de mudanças da Primavera Árabe?
15 anos da Primavera Árabe: A Contra Revolução
Na Tunísia, após a queda de Ben Ali, houve a aprovação de uma nova Constituição em 2014 e o país sofreu com uma grave instabilidade econômica. O novo presidente eleito em 2019, Kais Saied, suspendeu o parlamento anos depois e aumentou a concentração de poder. Em segundo mandato desde 2024, a Tunísia vive sob intensa repressão contra opositores políticos, com uma economia instável que depende do turismo. O país tornou-se ainda uma rota de migração para a Europa.
No Egito, Mubarak transferiu o governo para o exército. Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, venceu a primeira eleição no ano seguinte, mas o governo foi marcado por forte oposição e novos protestos. Morsi caiu após um golpe militar liderado pelo general Abdel Fattah al-Sisi, que chegou à presidência em 2013. Ele consolidou um regime autoritário e repressivo no Egito, revertendo muitas promessas democráticas da Primavera Árabe.
Para Silvia Regina Ferabolli, coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais do Mundo Árabe, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é preciso considerar as respostas dos regimes para entender os legados atuais. Ela ressalta a violência, políticas externas e o contexto político internacional da época como fatores importantes.
“As promessas da Primavera Árabe não foram cumpridas simplesmente porque a contrarrevolução - ou seja, a tentativa e o sucesso da retomada do controle dos estados sobre as suas populações - foi altamente bem-sucedida, com ajuda externa e com um ambiente internacional propício para esse tipo de comportamento, que é liberalização econômica e repressão política", explica.
"Quando a população realmente perde a esperança, caimos nessa apatia, nesse vazio político de desespero político que enxergamos no mundo árabe hoje"
Manifestações posteriores aconteceram também no Iraque e no Líbano, também com repressão. Mesmo anos depois, na Argélia, Abdelaziz Bouteflika renunciou à presidência em 2 de abril de 2019, pressionado por semanas de massivos protestos populares, respondidos com violência. A fórmula se repetiu no Sudão, onde um golpe militar em abril de 2019 derrubou Omar al-Bashir, no governo havia 30 anos, meses depois de protestos populares contra o autoritarismo e a crise econômica.
Protestos na Argélia levaram à renúncia de Abdelaziz Bouteflika, em 2019
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Para o historiador Mohammed Nadir, a Primavera Árabe teve um alto custo, mas foi necessária para mudar regimes econômicos e políticos, que precisaram se adaptar para sobreviver aos movimentos. É o caso de países como Jordânia e Marrocos, em que as promessas econômicas e políticas ajudaram a monarquia à sobreviver aos atos.
“Se adaptaram a monopolizar o poder, a não compartilhar o poder. Esse elemento é essencial para entendermos a natureza dos regimes árabes: o medo de compartilhar o poder. Tem a diferença de outros estados democráticos, em que a alternância do poder, a participação no poder é um elemento fundante. Nos países do Oriente Médio, isso não acontece", explica.
Mapa político redesenhado
O gráfico abaixo detalha alguns dos marcos que redesenharam o mapa político do Oriente Médio e Norte da África durante a Primavera Árabe. Desde o início na Tunísia, com o ato de Mohamed Bouazizi em 2010 até a queda de regimes, realização de novas eleições e golpes.
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15 anos da Primavera Árabe: Fragmentação de Estados e Crises Humanitárias
No Iêmen, um estado de emergência foi decretado no final de 2025 para conter forças separatistas. Os protestos de 15 anos antes, apesar de terem colocado fim em uma liderança de 33 anos de Ali Abdullah Saleh, colaboraram para que o país mergulhasse em uma guerra civil.
Protestos no Iêmen, em 2011
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Na Líbia, rebeldes mataram o ditador Muammar Gaddafi, que estava havia 42 anos no poder. Hoje, o país vive sob dois governos rivais, no leste e no oeste. Além da política, como herança devastadora dos protestos, a crise humanitária na Líbia é classificada como uma das piores do mundo pela ONU, assim como no Sudão e na Síria.
Desde 2024, após a queda do regime de Bashar al-Assad, o ditador que resistiu aos protestos da Primavera Árabe, há um vácuo de poder e fragilidade política em decorrência da guerra civil iniciada em 2012.
A internacionalista Silvia Feraboli, ressalta que, apesar de todas as mudanças em 15 anos e dos custos da Primavera Árabe, a ideia não morreu.
“A ideia de que os países árabes podem vir a ter democracias sustentáveis é uma concepção que a Primavera Árabe realmente trouxe à tona. E essa é uma ideia que não desapareceu. Ela só não consegue ser implementada por causa da repressão dos regimes que estão no poder - muitos deles com apoio externo. A ideia de democracia não precisa ser a liberal ocidental que estamos acostumados. Pode ser uma ideia de democracia diferente e que a gente vai ter que aprender a respeitar", diz.
Além da democracia, os povos Árabes continuam a sonhar com alternância política, melhores condições de vida e o fim absoluto de crises internas e humanas nos países.
